São Paulo: Velho PSDB, Bolsonarismo e os limites da Esquerda

Os moradores de São Paulo foram os primeiros a conviver com a covid-19, a partir de março, e com seus fortes efeitos.

A crise sanitária – agravada pelas insuficientes medidas governamentais – colaborou para uma grande precarização das condições de vida e de trabalho, principalmente da população periférica. Na cidade de São Paulo, já são mais de 13 mil mortos por conta do novo coronavírus, que prossegue ameaçando a população nos espaços de trabalho, no transporte público, no lazer e afins. O desemprego chega a 15% no município, além de milhões de pessoas ocupadas em trabalhos precários, com rendimentos que não fecham as contas do mês.

Nesse contexto, a campanha eleitoral na maior cidade do país acontece, por um lado, sob grande desinteresse popular, mas, por outro, com atenção dos poderosos, já que pode influenciar os rumos da política para 2022. As candidaturas com alguma viabilidade oscilam entre o bolsonarismo, o liberalismo do PSDB, a esquerda institucional e uma “terceira via”, que procura se colocar fora da polarização.

Ao todo, 14 candidaturas foram registradas. No campo da direita, Bruno Covas (PSDB), atual prefeito da cidade e ex-vice de João Doria (PSDB), tenta garantir seu segundo mandato. Sua administração pode ser lembrada, entre outras coisas, pelo desastre na zeladoria da cidade, abandonando as áreas mais precárias. O Vale do Anhangabaú, por exemplo, cuja reforma custou cerca de R$ 100 milhões à prefeitura, foi concedido, pelos próximos dez anos, à iniciativa privada por 6,5 milhões. O empresariado, portanto, foi beneficiado às custas da população da cidade. Além disso, Covas se gaba da aprovação da Reforma da Previdência Municipal, que só fez prejudicar servidoras e servidores do município. Seguindo o histórico do seu partido, o atual prefeito é adepto de políticas antipovo.

Celso Russomanno (Republicanos) é outro expoente da direita. Para não ficar para trás novamente – assim como ocorreu nas eleições de 2012 e 2016 –, se tornou abertamente o candidato de Jair Bolsonaro na capital paulista. Ele procura se apoiar, também, na visibilidade obtida na TV Record – emissora aliada do bolsonarismo. Deputado federal desde 1995, Russomanno é outro defensor de políticas antipovo, apesar de dizer o contrário. Em 2016, apoiou a “PEC da Morte”, que instituiu o Teto de Gastos, um dispositivo que, por 20 anos, limitará os necessários investimentos públicos. Defendeu, ainda, as Reformas Trabalhista (2017) e da Previdência (2019), além da terceirização irrestrita, que precariza as relações de trabalho (2017). Embora prometa, em campanha, disponibilizar um auxílio emergencial na esfera municipal, votou, enquanto deputado, contra a prorrogação do auxílio emergencial atualmente em vigor. Portanto, suas ações nocivas vão além de humilhar trabalhadores e trabalhadoras em seu programa de televisão e não pagar os devidos direitos trabalhistas em seus outros empreendimentos.

O candidato Arthur do Val (Patriota) é o representante do MBL, que tenta retomar os holofotes. Contrário ao serviço público e defensor da privataria neolibeal, procura se destacar criando polêmicas, como os ataques ao padre Júlio Lancellotti, que se dedica à população em situação de rua. A deputada federal Joice Hasselmann (PSL) era líder do governo Bolsonaro no Congresso, sustentando medidas cruéis contra nós, trabalhadoras e trabalhadores, como a Reforma da Previdência. Marina Helou (REDE) é a típica ambientalista de discurso fácil, que defende maior “sustentabilidade” sem procurar romper com os interesses que agravam os problemas ambientais.

A candidatura de Marcio França (PSB) é, no mínimo, curiosa. Integrante de um partido que, em tese, reivindica a centro-esquerda e apoiado pelo PDT, França possui uma trajetória que representa o fisiologismo e oportunismo político. Foi prefeito de São Vicente por dois mandatos, elegendo seu vice em um amplo arco de alianças, que dominou a política na cidade. Como deputado federal, foi aliado do governo Lula, chegando a integrar o conselho político do então presidente. Líder do PSB, aproximou o partido de Alckmin (PSDB) e entrou no governo estadual – primeiro como secretário, depois como vice-governador – reforçando o governo truculento, privatista e lembrado pelo escândalo do roubo da merenda escolar. Velha raposa política, com a máquina do governo na mão, em 2018, quase foi eleito governador, perdendo para João Doria por menos de 4 pontos percentuais. Neste ano, antes do início da campanha, procurou vincular sua imagem a Jair Bolsonaro, mas agora baseia sua campanha na fuga da polarização, dizendo que não tem “rabo preso” com ninguém.

No campo da esquerda, Guilherme Boulos (PSOL) é o que mais tem se destacado por meio do fortalecimento de propaganda nas redes sociais e da crescente adesão ao programa de conciliação de classes bastante próximo ao petismo. De acordo com as pesquisas eleitorais, o líder do MTST ocupa, atualmente, a terceira posição. Tem crescido entre os estratos mais jovens e de classe média, mas sua popularidade ainda tem baixo alcance nas periferias da cidade. Tal fato parece refletir, em grande medida, as dificuldades de inserção orgânica nas bases de expressiva parcela da esquerda, que há tempos tem se voltado, prioritariamente, à disputa eleitoral. Mesmo sua proposta de frentes de trabalho para gerar empregos parece não conquistar essa parcela mais empobrecida. Para garantir viabilidade eleitoral, Boulos conta com Luiza Erundina, ex-prefeita de São Paulo no início dos anos 1990, como candidata à vice-prefeita na chapa. Adequando o discurso à institucionalidade, foi recebido, por exemplo, para sabatina na Associação Comercial de São Paulo – a “casa do liberalismo”. Para ganhar voto nas camadas médias, propõe, por exemplo, ampliar o efetivo da Guarda Civil Metropolitana (GCM), cujo comportamento brutal tem se assemelhado ao da PM – sobretudo, desde que obteve poder de polícia, no governo Dilma, além de autorização para porte de armas durante a gestão do petista Fernando Haddad (2012-2016). Embora o PSOL se coloque como uma alternativa ao petismo, fica cada vez mais difícil encontrar, no partido, diferenças significativas de programa. A diferença se dá na estética publicitária e pela menor capacidade de capilaridade do partido nas bases populares.

As candidaturas de Jilmar Tatto (PT) e Orlando Silva (PCdoB), por sua vez, apresentam dificuldades de crescimento. Por conta da inviabilidade eleitoral, ambas ensaiam um discurso mais à esquerda que nas campanhas tradicionais, diferentemente de outras capitais, onde têm chances de vencer. Tatto, apesar de contar com o apoio de Lula e integrar um partido de massas e que já governou a cidade em três oportunidades, segue como candidato “desconhecido” por significativa parcela de paulistanos e paulistanas – além disso, muitos simpatizantes do PT optaram por Boulos. Orlando Silva nacionalizou a campanha, com um discurso mais enfático contra Bolsonaro, contra o desemprego e antirracista.

PCO e PSTU lançaram, respectivamente, as candidaturas de Antonio Carlos e Vera Lúcia, mas, como de praxe, desempenham o papel de “denúncia” do processo eleitoral, uma vez que não possuem viabilidade segundo as “regras do jogo”. Vera tem como uma das principais bandeiras a criação de conselhos populares, proposta que acreditamos que só poderá ser concretizada a partir de baixo, fora do poder de Estado. Apesar do discurso mais combativo, mesmo esse papel de denúncia é praticamente inviabilizado pelas restrições eleitorais e o boicote da mídia. A tática de utilizar o processo eleitoral para fazer propaganda revolucionária, ao nosso ver, causa o efeito contrário: nos debates, isso não é deixado claro e a impressão que se dá aos trabalhadores é que esses candidatos pretendem vencer o processo. Dessa forma, as respostas ficam fora de lugar e os representantes da mídia burguesa exploram essa lacuna, mostrando as propagandas revolucionárias como falhas programáticas incapazes de responder aos problemas colocados aos gestores das instituições burguesas.

O Estado e suas facetas – os governos – são o instrumento de garantia dos privilégios das classes dominantes. Não estão, portanto, jamais alinhados aos nossos interesses enquanto classes oprimidas. Ainda que a esquerda institucional dê protagonismo à disputa eleitoral, seus limites, para nós, são evidentes: não à toa, nos últimos anos, foram vários ataques contra os/as de baixo, como as Reformas da Previdência, Trabalhista e o Teto de Gastos – que limita os investimentos públicos.

O processo eleitoral é ilusório para as classes oprimidas. As conquistas que obtivemos, ao longo da história, se deram pela luta organizada e pressão popular, não pela disputa por entrar em governos ou por políticos bem-intencionados. Independentemente de quem ocupe a prefeitura a partir de 2021, nós só conseguiremos barrar ataques e retrocessos a partir da ação direta e da independência de classe. Como anarquistas organizados, seguimos apostando no fortalecimento dos sindicatos, movimentos de moradia, espaços estudantis e outros da nossa classe. Acreditamos que ação direta é o único caminho para barrar o avanço da direita e os ataques da classe dominante! É necessário dizermos à nossa classe que não há possibilidade de uma vida digna fazendo negociações e direcionando a militância para a gestão da máquina estatal burguesa. Não haverá justiça social enquanto houver capitalismo: a tarefa é construir movimentos e não candidatos!

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