Declaração de Princípios

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“Desde que o anarquismo é anarquismo, não tem pregado outra coisa senão a ação direta das massas contra os burgueses, pela associação, pela colaboração dos sindicatos, pelas greves, pela sabotagem, por todos os processos imagináveis.
“Duas medidas são urgentemente necessárias para intensificar a ação anárquica: seleção dos militantes e concentração de forças. Só isso nos dará unidade de ação.”

José Oiticica (1882-1957)

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O SURGIMENTO E O DESENVOLVIMENTO DO ANARQUISMO

O anarquismo surgiu como expressão de um setor do movimento popular do século XIX, consolidando-se com a fundação da Aliança da Democracia Socialista (ADS). Essa organização política revolucionária, que atuou no seio da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), teve como principal militante Mikhail Bakunin, o qual levou o socialismo federalista de P.-J. Proudhon às últimas conseqüências. Bakunin e outros militantes, como James Guillaume, Adhémar Schwitzguébel e Giuseppe Fanelli, expressaram, por meio da ADS, as aspirações e os desejos de parte significativa das classes oprimidas de seu tempo.

Durante os anos 1860 e as décadas seguintes, as posições anarquistas chegaram aos cinco continentes, impulsionando movimentos populares em todo o mundo. Na América Latina, isso ocorreu em praticamente todos os países, dentre os quais podemos citar: Brasil, Argentina, Uruguai, Chile, Peru, Bolívia, Nicarágua, México, Costa Rica, Equador, Colômbia e Cuba. Para além da América Latina, houve significativa participação anarquista em movimentos populares de outros continentes, em países como Rússia, Ucrânia, Espanha, Bulgária, Estados Unidos, Portugal, França, Itália, Alemanha, África do Sul, Egito, China, Japão, Coréia, Austrália entre outros. Historicamente, o anarquismo vem se mantendo no tempo, em momentos mais e menos vigorosos, de fluxos e refluxos, sem, no entanto, jamais ter desaparecido completamente.

Assim compreendido, o anarquismo não surge da reflexão puramente filosófica e intelectual, descolada das lutas sociais, mas a partir da expressão de um setor relevante das classes oprimidas que, nos processo de luta de classes, constituiu elementos ideológicos capazes de se manter na história e atingir as mais distintas extensões geográficas.

Com uma relação de complementaridade com os movimentos populares, se por um lado o anarquismo surge desses movimentos, por outro, vem constituindo, historicamente, um elemento fundamental para esses movimentos, influenciando-os significativamente.

ANARQUISMO, TEORIA E IDEOLOGIA

Definimos o anarquismo como uma ideologia, um tipo de socialismo revolucionário que envolve um conjunto de aspirações, desejos e valores vinculados a uma prática política; trata-se, por isso, de uma ideologia fundamentada em elementos teóricos e práticos.

Para nós, teoria e ideologia são conceitos distintos. À teoria compete a função de compreensão da realidade passada e presente; à ideologia compete a função de intervir sobre a realidade presente, no intuito de transformá-la. Desde seu surgimento, o anarquismo utilizou-se de diferentes matrizes teóricas para a compreensão da realidade em que esteve inserido; tais teorias estiveram ligadas a distintos métodos e variadas compreensões teórico-epistemológicas, vinculadas às próprias noções de ciência vigentes em cada época. Se as teorias anarquistas variaram significativamente durante a história, os princípios da ideologia anarquista, que constituem o cerne político-doutrinário do anarquismo, vêm se mantendo intactos. A ideologia envolve desejos, vontades, objetivos estratégicos e, por isso, não pode ser caracterizada como teoria ou como ciência; é por esse motivo que não concebemos o anarquismo, ou qualquer outro socialismo, como “socialismo científico”. Definir o anarquismo como uma ideologia implica reconhecer que, dentre seus elementos constitutivos, há significativo conteúdo de natureza não-científica, envolvendo vontades em relação ao futuro – e não acreditamos ser possível fazer teoria ou ciência do futuro.

A ideologia anarquista fundamenta-se em uma ética particular para a defesa de uma transformação social revolucionária, em nível internacional, que possa acabar com a dominação de classe e outras dominações. Para isso, busca o fortalecimento de lutas de base classista, que devem ser levadas a cabo de baixo para cima, e ser protagonizadas por diferentes sujeitos oprimidos. Na luta de classes, o anarquismo busca articular movimentos revolucionários, atuar com coerência estratégica e congruência entre meios e fins, na busca de uma revolução social, na qual a violência constitui um aspecto inevitável. Como objetivo finalista, o anarquismo defende a criação de um socialismo autogestionário e federalista, no qual são suprimidos o capitalismo e o Estado, e se concilia liberdade individual, liberdade coletiva e igualdade.

NOSSOS PRINCÍPIOS

Para fundamentar nossas concepções e nossa atuação, estabelecemos dois tipos de princípios:

1. Os princípios político-ideológicos que, a nosso ver, constituem a espinha dorsal da ideologia anarquista.

2. Os princípios estratégicos e organizacionais, que estabelecem, dentro do anarquismo, quais são as posições estratégicas e organizacionais que, para nós, estão elevadas ao nível de princípios.

Por razão da distinção que realizamos entre teoria e ideologia, as teorias e os métodos de análise utilizados pela organização para a compreensão da realidade não constituem questão de princípio; mantemos-nos permanentemente abertos em relação às ferramentas que possam nos ajudar a explicar o contexto em que estamos inseridos.

1. PRINCÍPIOS POLÍTICO-IDEOLÓGICOS

ÉTICA E VALORES

O anarquismo sustenta-se em uma concepção ética particular, determinada por valores específicos. A ética e os valores anarquistas possuem bases filosóficas, que compreendem uma visão de mundo e do ser humano, uma interpretação da realidade e uma concepção de ação; fundamentam, dessa maneira, nossa avaliação e nosso julgamento da sociedade e das propostas de transformação social.

É por meio dessa concepção ética que realizamos uma crítica da dominação em geral, e do capitalismo e do Estado em particular, e propomos meios para chegar ao socialismo libertário e ao fim da dominação. Assim como esses fins, nossos meios também são elaborados a partir da mesma concepção ética que norteia toda nossa prática política anarquista.

Essa concepção ética sustenta nossas produções teóricas e práticas anarquistas; todos os trabalhos e as intervenções da organização anarquista estão nela fundamentados.

LUTA CONTRA A DOMINAÇÃO

Caracterizamos que as relações sociais estruturais do capitalismo estão fundamentadas na dominação, que inclui a exploração. Julgamos que essas relações devem ser transformadas por produzirem constantemente a desigualdade econômica, a coerção, a alienação política e cultural. As relações de dominação envolvem as distintas esferas da sociedade (economia, política, cultura etc.) e, pôr fim a elas, exige uma oposição ao capitalismo, ao Estado e às diversas formas de dominação: de classe, de raça, de gênero, imperialismo.

Trata-se de uma luta contra a dominação de maneira geral, e contra a dominação de classe em particular.

CLASSISMO

Dentre as relações de dominação produzidas pelo capitalismo, compreendemos que a dominação de classe é fundamental, por razão de seu papel estrutural. A desigualdade entre as classes sociais conforma conjuntos de classes dominantes e classes oprimidas, as quais possuem posições antagônicas na sociedade e estão em contradição e em luta permanente.

Nossa defesa do classismo consiste no reconhecimento da luta de classes – ainda que as classes sejam definidas para além da esfera econômica e extrapolem a contradição entre burguesia e proletariado – e da necessidade do fim das próprias classes sociais.

As classes oprimidas constituem o conjunto formado pelos sujeitos capazes de integrar conscientemente a luta de classes e protagonizar a transformação social e sua própria emancipação.

PRÁTICA POLÍTICA

Buscar a transformação social revolucionária exige defender uma prática política que intervenha no jogo de forças responsável por forjar as relações de poder da sociedade. Por isso, é fundamental uma intervenção na realidade no sentido de transformá-la.

Ao compreendermos o anarquismo como uma ideologia conformada por teoria e prática, entendemos que não se pode resumir o anarquismo a somente um desses dois elementos. O anarquismo é teoria e prática e, portanto, uma prática política em sentido transformador é imprescindível.

CONCEPÇÃO DE ESTRATÉGIA E TÁTICA

A leitura da realidade e o estabelecimento de caminhos e objetivos a atingir dizem respeito a uma concepção de estratégia e tática. Nas análises sociais, a estratégia envolve um planejamento abrangente, de bases estruturais, e a concepção das grandes linhas para se atingir objetivos determinados. A tática, também em relação ao social, é mais flexível que a estratégia, diz respeito à conjuntura e envolve ações de menos abrangência que, conforme forem realizadas, devem concretizar a realização da estratégia.

É o objetivo que condiciona a estratégia, e esta que condiciona a tática. A estratégia está subordinada aos objetivos e a tática está subordinada à estratégia. Necessariamente, a realização da tática deve apontar para a realização da estratégia, e a realização da estratégia deve apontar para a realização do objetivo.

Isso implica uma coerência entre meios e fins, e a concepção de que os meios escolhidos determinam os fins. Os fins, dessa maneira, não justificam os meios; são, na realidade, os meios que determinam os fins.

SOLIDARIEDADE E APOIO MÚTUO

A solidariedade e o apoio mútuo entre as classes oprimidas colocam a necessidade de uma associação permanente entre elas na luta pela transformação revolucionária e para o estabelecimento do socialismo libertário.

Solidariedade de classe e apoio entre o conjunto de oprimidos exigem que não se estabeleçam relações de dominação entre setores oprimidos. Todos os oprimidos devem estar juntos na luta: trabalhadores assalariados da cidade e do campo, precarizados/autônomos, desempregados, marginalizados e camponeses.

São os próprios oprimidos que, em relações de solidariedade e apoio mútuo, devem protagonizar o projeto de construção do poder popular e o processo de sua própria emancipação.

AÇÃO DIRETA E INDEPENDÊNCIA DE CLASSE

As práticas voltadas ao combate do sistema de dominação capitalista devem ser realizadas por quem sofre suas conseqüências, por meio da ação direta, sem intermediários. Trata-se de ter independência de classe em relação a pessoas e/ou instituições que estabelecem relações autoritárias, assistenciais, forjando dominação ou dependência das classes oprimidas, de maneira a lhes alienar ou retirar seu protagonismo nos processos de luta e transformação.

Para nós, o Estado Moderno é um elemento constituinte do capitalismo, a instituição política das classes dominantes. Por isso, ele não constitui um meio adequado para as ações que têm por objetivo a transformação social; nossa prática política deve se dar, assim, fora de seus canais institucionais. Os políticos, que têm seu espaço de atuação no Estado, não podem ter o protagonismo da ação; não podemos dar a eles o nosso direito de fazer política.

Assumir essa posição exige que busquemos a autonomia de nossos projetos, no que diz respeito a aspectos econômicos, políticos e sociais, dentre os quais se encontra a educação.

TRANSFORMAÇÃO REVOLUCIONÁRIA E CONSTRUÇÃO DO PODER POPULAR

A transformação social, objetivo finalista na estratégia anarquista, é necessariamente revolucionária. Entendemos que o socialismo só pode ser atingido por uma revolução social e não por meio de reformas ou da democracia representativa.

A revolução é um processo que compreende etapas: o acúmulo de força social a partir das lutas populares, a ampliação de seus horizontes e o confronto inevitável com as classes dominantes e suas instituições, e o estabelecimento do socialismo libertário. Chamamos esse processo de construção do poder popular.

Construir o poder popular envolve lutar contra o capitalismo, e, conseqüentemente, contra o Estado, visto que sua destruição não é conseqüência do fim do capitalismo. O socialismo não pode se estabelecer dentro dos marcos do capitalismo ou se utilizar do Estado como meio de atuação.

É fundamental ter uma estratégia para conseguir levar a cabo todas as conquistas revolucionárias e evitar que as classes dominantes voltem ao poder. Devemos ter em mente que o poder popular deve ser construído e mantido.

AUTOGESTÃO E FEDERALISMO

A autogestão e o federalismo norteiam toda a prática política anarquista e são elementos fundamentais da sociedade socialista que defendemos, organizando e articulando, por meio da democracia direta, as estruturas econômicas, políticas e sociais.

A autogestão implica a participação nos processos decisórios, de maneira ampla e proporcional, por todos que são por eles afetados; envolve elementos econômicos, políticos e sociais. Por meio da autogestão, constroem-se assembléias pela base que, de maneira horizontal, proporcionam o espaço para a participação popular plena nas tomadas de decisão coletivas.

O federalismo permite uma articulação das instâncias autogestionárias e, por meio do método de delegação com mandato imperativo, da rotatividade e da revogabilidade de funções, constrói, de baixo para cima, a estrutura decisória responsável pela gestão de sociedades mais numerosas e complexas.

Torna-se necessário conseguir o maior nível de auto-suficiência local, por meio de conselhos sindicais e/ou comunais, que devem se articular para as soluções de questões mais amplas, que envolvam distintas localidades.

LIBERDADE E IGUALDADE

A liberdade e a igualdade norteiam tanto nossa luta cotidiana quanto a nossa concepção de sociedade futura.

Compreendemos a liberdade tanto em termos individuais quanto coletivos. Ela abarca a liberdade sobre o corpo, de expressão, de opinião, e também a libertação coletiva, de base classista, das estruturas de dominação, tais como o capitalismo, o Estado, além do fim das dominações de classe, de raça, de gênero e do imperialismo. A liberdade envolve o completo desenvolvimento das faculdades de todos e de cada um.

Compreendemos a igualdade em termos econômicos, políticos e sociais. Ela envolve: o fim da propriedade privada e da exploração, questões relacionadas à produção, à distribuição e ao consumo; o fim do Estado e a participação efetiva nas decisões locais e na articulação para as decisões regionais ou globais; o fim da dominação de maneira geral.

A liberdade e a igualdade devem levar em conta a diversidade, dando oportunidade de escolha aos indivíduos, em termos de orientação sexual, vocação profissional (dentro dos marcos autogestionários/federalistas), associações, estilos de vida etc.

INTERNACIONALISMO

O anarquismo defende a associação e os interesses comuns, ambos de base classista, entre aqueles que são vítimas do sistema de dominação capitalista. A iniciativa para as lutas pela transformação desse sistema deve ser internacional, guiadas pelos interesses de classe, e não por interesses nacionais, o que compreende a defesa do internacionalismo.

Não há um “etapismo” necessário para a chegada à revolução, que exija a promoção do capitalismo em aliança com as classes dominantes nacionais para se chegar ao socialismo. As lutas revolucionárias devem ser levadas a cabo desde já, sem alianças com as classes dominantes, e a partir de bases internacionalistas.

Isso não significa nos abster das lutas de libertação nacional e/ou anti-imperialistas. Compreendemos que temos o dever de participar dessas lutas, contra o nacionalismo, e com um programa revolucionário, socialista e internacionalista, que deve ser impulsionado pelas classes oprimidas internacionais e contra as classes dominantes de todos os países.

2. PRINCÍPIOS ESTRATÉGICOS E ORGANIZATIVOS

ORGANIZAÇÃO E FORÇA SOCIAL EM TODOS OS NÍVEIS

A organização, para nós, constitui um princípio. Isso não significa dizer que não reconheçamos e nem que desconsideremos os aspectos espontâneos que envolvem as lutas populares; acreditamos que a espontaneidade é fundamental para essas lutas e é ela que faz com que, seguindo seus instintos, o povo passe a lutar. No entanto, essa espontaneidade não é suficiente. Se ela pode, em diversos momentos, agregar e mobilizar pessoas, ela não consegue, na maioria dos casos, sustentar lutas de longo prazo e desempenhar as funções que uma transformação revolucionária exige.

A organização aumenta a força social mobilizada, a partir de uma conta em que um mais um é mais de dois, e, por isso, deve ser defendida como ferramenta fundamental de aumento da força social das classes oprimidas. A organização em todos os níveis, no social (movimentos populares), no político-social (tendências, frentes), no político (organização anarquista) potencializa o projeto anarquista. Quanto maior a organização do nível político, maior sua possibilidade de influenciar o nível político-social; quanto maior a organização do nível político-social, maior sua possibilidade de influenciar o nível social; quanto maior a organização do nível social, maiores são as chances de construir um projeto de poder popular. O aumento permanente de força social dos movimentos populares é fundamental, tanto para as melhorias parciais quanto para processos de transformação revolucionária.

DISTINÇÃO DOS NÍVEIS DE ORGANIZAÇÃO

Entendemos que a prática política anarquista deve se dar fundamentalmente por dois níveis distintos e complementares de ação.

O nível social, de massas, em que se organizam os movimentos populares e o nível político-ideológico, da organização específica anarquista. Essa diferenciação é fundamental para nós e exige uma postura dupla: por um lado, como membros das classes oprimidas, fortalecer as lutas populares de massas; por outro, não se perder isoladamente nessas lutas e, para isso, articular-se em uma organização política revolucionária, em torno de um programa, para impulsionar e garantir o protagonismo dessas lutas dentro dos marcos de um projeto determinado de transformação.

Em caso de necessidade, pode-se articular, em um terceiro nível intermediário, político-social, de tendência ou frente, parte da militância de um ou mais movimentos populares em torno de afinidades práticas de atuação.

COMPLEMENTARIEDADE ENTRE OS NÍVEIS

Não pode haver relação de hierarquia e/ou dominação entre os níveis de atuação; eles são complementares e sustentam uns aos outros.

Da maneira como a concebemos, a organização política não possui caráter de vanguarda, de portadora da consciência das classes oprimidas, a qual lhes deve ser levada de fora, por militantes supostamente mais avançados. A organização anarquista possui caráter de minoria ativa, no sentido de um agente que funciona como motor e fermemento das massas e que, portanto, só tem utilidade em meio a elas. Os militantes da organização política anarquista podem ensinar, mas, certamente, também têm de aprender e, como membros das classes oprimidas, constituem somente um setor dessas classes, organizado em torno de um programa político-ideológico.

Não concordamos que, necessariamente, sem a organização política, o movimento popular tenha somente capacidade de luta reivindicativa, por reformas. A organização anarquista pode impulsionar o avanço aos objetivos revolucionários e as alianças com outros movimentos populares de maneira a articular um projeto de poder popular com ampla base entre os oprimidos.

A organização política se coloca lado a lado na luta com os movimentos populares e não luta por eles ou em nome deles, mas junto com eles. Uma revolução social, de bases populares, só pode ser feita pelo próprio povo.

ORGANIZAÇÃO ANARQUISTA COM CARÁTER DE MINORIA ATIVA

A organização específica anarquista possui caráter de minoria ativa e reúne militantes com afinidades político-ideológicas e programáticas. Trata-se de uma organização de minoria, pois é sempre menor que as organizações do nível social (sindicatos, movimentos sociais, etc.).

O nível político exige confiança plena entre os militantes e tem por objetivo promover um programa em diversos espaços da sociedade, fazendo com que sua estratégia desenvolva-se, chegando a objetivos determinados. Como um nível mais estável e permanente no espaço e no tempo, a organização anarquista permite que a força social dos anarquistas seja mensurada, que a conjuntura seja avaliada e que se decida, da maneira mais adequada possível, como atuar, o que pode significar avançar ou recuar, escolher uma forma ou outra de agir.

A organização anarquista funciona de acordo com a lógica dos círculos concêntricos. No nível político, possibilita a cada militante uma coerência entre direitos e deveres. No nível social, visa dar à estratégia de massas da organização a maior efetividade. O método decisório que adotamos é a construção de consenso e, não sendo possível, a votação, vencendo a maioria ou um percentual determinado nos documentos orgânicos.

Concretamente, a organização anarquista promove a criação e a participação nos movimentos populares – e todos os militantes da organização realizam esse trabalho social – em diversos espaços. Realiza produções teóricas e estratégicas, elabora e difunde materiais de propaganda, promove formação política, entre outras atividades. Ela busca, nos distintos momentos e espaços do processo de luta de classes, servir como um espaço de convergência e concentração de força social dos anarquistas, com o objetivo de dar aos acontecimentos um direcionamento determinado.

Entendemos ser fundamental constituir uma força organizada para não sermos levados a reboque por outros agrupamentos ou movimentos.

UNIDADE TEÓRICA E IDEOLÓGICA

A unidade teórica e ideológica fundamenta-se em uma posição unitária em torno de uma linha política clara, construída coletivamente pelos métodos decisórios da organização anarquista, e que deve ser defendida por todos os seus militantes.

Ter uma unidade teórica e ideológica não significa que não haja posições diferentes na organização, mas que, coletivamente, há uma linha teórica – que envolve a compreensão da realidade, a partir de métodos e teorias determinadas – e ideológica – que envolve uma compreensão da ideologia anarquista e uma determinada aplicação dela. Essas linhas são seguidas por todos os militantes e podem, segundo suas vontades e em acordo com os métodos decisórios, ser modificadas (linha teórica) ou aprofundadas (linha ideológica).

UNIDADE ESTRATÉGICA E TÁTICA

A unidade estratégica e tática é uma unidade programática, de ação, que estabelece um conjunto comum de objetivos e caminhos para a atuação coletiva. Também não significa que não haja posições diferentes, mas que elas foram discutidas e que algumas delas foram escolhidas coletivamente para serem defendidas e praticadas por todos os militantes.

Objetivos e caminhos podem ser modificados ao longo do tempo, mas sempre de maneira coletiva. Para nós, o mais importante é que todos os militantes da organização remem o barco no mesmo sentido. Nossa linha estratégica e tática deve ser formalizada em um programa, norteando toda nossa atuação.

RESPONSABILIDADE COLETIVA

Defendemos o alto grau de responsabilidade, compromisso e autodisciplina, em nossa atuação em todos os níveis.

No nível político, cada militante é responsável por participar das instâncias decisórias e das atividades da organização, assumindo funções externas (trabalho social / movimentos populares) e funções internas (secretarias etc.). Cada militante se compromete a promover o programa da organização e a tratar dos problemas que se referem às linhas política e estratégica/tática nos espaços adequados.

Em relação ao nível social, todos os militantes se comprometem a atuar de acordo com os princípios anarquistas e com o programa da organização. Os militantes anarquistas não estabelecem relações de hierarquia ou dominação com militantes e/ou organizações do nível social, sabem respeitar as posições da base e têm o compromisso de respeitar sua realidade e sua cultura.

A responsabilidade dos militantes não é individual, mas coletiva. Cada militante é responsável pela organização anarquista e ela, da mesma maneira, é responsável pela atuação de cada um de seus militantes.

LUTAS POPULARES E PROTAGONISMO DO NÍVEL DE MASSAS

O nível responsável por promover as lutas, cujos ganhos e conquistas aliviam as condições das classes oprimidas, e que pode levar à revolução social e ao socialismo libertário, é o nível social, de massas.

Por isso, entendemos ser imprescindível a criação de movimentos populares e a participação em movimentos já existentes (movimentos sociais, sindicatos, etc.). Para nós, essa é a única forma de promover a luta anarquista sem substituir as classes oprimidas pela organização anarquista, ou sem promover o elitismo, de um conjunto limitado de militantes que busca libertar as classes oprimidas em seu nome.

Em nossa prática política, promovemos um programa e um método de atuação nos movimentos populares. Dependendo de suas concepções teóricas e de sua prática, os movimentos podem não contribuir estrategicamente para a transformação social que defendemos; tal é o caso, atualmente, da maioria dos movimentos sociais e sindicatos. O programa e a metodologia que defendemos, e que pode levar os movimentos populares a constituírem os germes do poder popular, implicam: a construção de movimentos fortes em torno das necessidades concretas, com a possibilidade de participação de militantes com diferentes concepções ideológicas e religiosas; a presença ampla de diversos setores das classes oprimidas; lutas que sejam organizadas pela base, com independência de classe, autonomia e combatividade, e que se utilizem da ação direta e das formas de democracia direta (federalismo e autogestão), promovendo, ao mesmo tempo, as lutas parciais e os objetivos revolucionários, e articulando-se em organizações populares amplas.

REIVINDICAÇÕES PARCIAIS E OBJETIVOS REVOLUCIONÁRIOS

Quando sustentamos que os movimentos populares devem se mobilizar na luta por ganhos e conquistas parciais, que muitas vezes tomam corpo nas reformas, não estamos abrindo mão de nossos objetivos revolucionários. Para nós, a lógica do “tudo ou nada” não existe.

Acreditamos não ser possível defender uma luta revolucionária sem considerar que ganhos possam e devam ser conquistados ao longo do caminho; para defender a revolução, acreditamos ser imprescindível haver uma “ginástica revolucionária”, feita, necessariamente, em torno das lutas por reivindicações parciais. As lutas revolucionárias de massas devem caminhar nesse sentido.

Não sustentamos a posição de “quanto pior, melhor”; os pequenos ganhos podem tornar menos dura a vida das classes oprimidas e possibilitar seu engajamento/aprofundamento nas lutas. Esses ganhos de parciais, quando são conquistados por um movimento popular em luta, podem contribuir com os objetivos revolucionários.

Lutar, criar, poder popular!
Organização Anarquista Socialismo Libertário (OASL)
Maio de 2011

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