A Coordenação Anarquista Brasileira frente às eleições de 2020

Atuamos em função da construção do Poder Popular. O que isso significa? Significa que onde há militantes da CAB, há um trabalho para promover o protagonismo das classes oprimidas nos assuntos que lhes dizem respeito e nas necessidades do conjunto da classe trabalhadora. Isso se expressa na participação e discussão desses assuntos, na ação direta para conquistá-los e na autoorganização popular para mantê-los. Ou seja, construir ou reforçar movimentos populares com democracia de base, independência de classe nos diferentes setores e lugares em que há oprimidos e oprimidas. É nesse processo coletivo fundamental que apostamos para mudar a correlação de forças da atual etapa.

Estrategicamente queremos que a autoorganização popular, traduzida em autogestão e democracia direta, substitua o Estado e o Capitalismo. Que a gestão econômica, política e social seja feita diretamente pelas classes oprimidas. Taticamente, promover toda e qualquer iniciativa que caminhe nesse sentido. Ou seja, ações em que as pessoas participem, discutam coletivamente, tomem decisões e lutem diretamente por objetivos coletivos de maneira classista, combativa, com independência de partidos e empresas e com protagonismo dos principais interessados.

É por isso que nós anarquistas da CAB descartamos as eleições burguesas, pois elas não cumprem esse objetivo. Elas são uma farsa, um jogo de cartas marcadas, um meio que os de cima se valem para passar a sensação de que há mudança quando na verdade o núcleo duro do sistema de dominação se mantém intacto. Junto a isso, há a ilusão promovida por setores da esquerda institucional de que as eleições são um momento para falar de revolução, para mostrar as contradições do capitalismo e para difundir o programa socialista. É uma tática, dizem eles. Tática que produz ilusões, como se os problemas do nosso povo pudessem ser resolvidos no marco desse sistema. Ou como se os problemas da população tivessem relação com o calendário eleitoral. Táticas que produzem o atrelamento dos movimentos populares e dos sindicatos às agendas da democracia burguesa, às negociatas dos gabinetes, ao ritmo e política das instituições burguesas. Política que transforma lutadores em burocratas políticos, militantes em gestores do capitalismo, apoiadores das lutas em simples curral eleitoral. E ao tentarem “disputar” o Estado, essas forças da esquerda reformista, na verdade, são colonizadas pelo próprio Estado, que é o espaço onde os ricos e poderosos se organizam por excelência.

Então, o que nós da CAB propomos?

Nós das classes subalternizadas vivemos mais um momento difícil. As condições de vida têm piorado, em função de uma série de questões: retirada de direitos trabalhistas, aumento do custo de vida, deterioração acelerada nas condições de trabalho, o que significa trabalhar mais e ganhar menos, além da piora dos serviços públicos. Junta-se a isso a pandemia, as centenas de milhares de mortes, aumento das violências de gênero e racial e o aumento do desemprego (que já era grande). De quem é a responsabilidade? Estruturalmente do capitalismo e de seus agentes políticos e econômicos, conjunturalmente do governo de turno.

As concessões que o sistema fez durante os governos petistas, onde essa esquerda institucional fez alianças com os nossos inimigos (oligarquias políticas, patrões, banqueiros, etc.), e que se traduziram em políticas sociais, têm sido rapidamente desmontadas desde o impeachment de Dilma. O projeto ultraliberal do governo Guedes-Bolsonaro tem aprofundado esse desmonte. Trata-se de um governo que combina conservadorismo, neo-liberalismo, centralização política e militarização da vida social. É um governo que na conjuntura busca avançar de forma ofensiva naquilo que temos chamado de Estado Policial de Ajuste para caracterizar o momento político e social do país a longo prazo. Essa etapa do Estado capitalista é um produto do fim da conciliação de classes e não será resolvido ou modificado de acordo com as eleições. A política do corte dos direitos e do ajuste é uma razão de Estado que ultrapassa esse período eleitoral. Daí as reformas (trabalhista, da previdência, administrativa) que destroem os poucos direitos das classes oprimidas, a presença cada vez maior dos militares nas instituições políticas, a ofensiva conservadora em diversas áreas, o discurso anti-científico, a austeridade fiscal. A tutela militar deste governo prova que as classes dominantes não aceitarão “reformas” pela via eleitoral, mas que se mobilizarão para aprofundar o modelo econômico reforçado no final de 2015 e em 2016.

Bolsonaro não é um louco isolado que aplica uma política particular. Ele é a expressão de um fenômeno que o transcende (o bolsonarismo) que possui relação ideológica com a classe dominante brasileira e latino-americana e em parcelas do nosso povo e que traduz sentimentos, aspirações e confusões das classes oprimidas em uma política que conseguiu vencer eleitoralmente. Nesse sentido, as eleições que deram a vitória para Bolsonaro são mais a cereja do bolo do que o bolo em si. Elas são o resultado da desmobilização dos movimentos populares pela tecnologia do reformismo, são o resultado da pacificação da combatividade dos movimentos em troca de gabinetes e votos. Mudar a correlação de forças, vencer esse projeto genocida e criar as condições para que enquanto classes oprimidas possamos ter mais voz nas decisões dos assuntos que nos afetam, tem mais relação com o que fazemos todos os dias do que com essa e com todas as eleições em si. A recente história do continente latino-americano provou que o golpismo é a ferramenta política desse período. Ferramenta que já foi utilizada em outros períodos históricos, mas hoje é aplicada com outros mecanismos policiais, judiciários e com uma extrema-direita associada às classes dominantes latino-americanas.

Assim, o que o nosso projeto propõe é mobilizar os diversos setores das classes oprimidas, pois só com luta popular teremos condições de impedir essa ofensiva neoliberal e conservadora, e organizar estes mesmos setores de forma autônoma e independente, pois a participação popular demanda espaços e formas organizativas de base e é condição para que a política deixe de ser assunto de profissionais e passe a ser algo cotidiano nas vilas, locais de trabalho e de estudo. Nossa organização política trabalha para isso e as eleições não favorecem essa construção, pois desvia energias militantes, estimula ilusões da política burguesa e atrela os movimentos ao personalismo de candidaturas ou à politicagem dos gabinetes eleitorais. Além disso, as eleições são, em grande medida, determinadas pelo poder material da classe dominante, que mobiliza seus aparatos financeiros e midiáticos para garantir sua vitória. Dos 10 partidos que mais recebem do montante do fundo eleitoral, 8 podem ser descritos strictu-sensu como partidos de direita, e com muita generosidade podemos incluir o PT e o PDT como partidos de centro-esquerda. As eleições também degeneram e desmoralizam lutadores sociais sinceros que se entregam nas campanhas da esquerda institucional, ao se associarem em coligações eleitorais com aqueles setores políticos que se colocaram contra os direitos da classe trabalhadora.

Desde o início de 2020, nós da CAB trabalhamos dentro dos movimentos populares que atuamos com a Campanha de Luta por Vida Digna. Em todo o território em que temos trabalho social, os grupos de base, coletivos, movimentos, sindicatos e tendências que ajudamos a construir ou que se identificaram com a proposta se puseram a discutir a vida cara e violenta que nos afeta e a organizar essa campanha de denúncia, de apoio mútuo, de solidariedade e de agitação. Foram montados comitês estaduais e municipais, criadas redes de apoio mútuo, feitas atividades de propaganda e reuniões de avaliação e de discussão coletiva. De baixo pra cima estamos em campanha, não para eleger um candidato ou um partido que promete solucionar os problemas criados pelo sistema capitalista, mas para falar dos problemas que nos afetam, dialogar entre povo sobre os responsáveis por isso, criar iniciativas de ajuda mútua em comunidades em que vivemos para passar por esse momento de pandemia. Estamos em campanha chamando o povo a participar e fazer política, a se organizar, a lutar, e não para votar nas instituições dos ricos e políticos, mas para criar uma força de massas, nas bases e nas ruas que façam a classe dominante tremer e por fim, recuar. O nosso rebelde continente latino-americano apontou este caminho, o da insurreição de movimentos de massa nas ruas, enfrentando as forças da repressão e se organizando em seu local de trabalho, estudo e moradia.

Sendo assim, nós da CAB não estamos indiferentes ao que ocorre no andar de cima, porque a luta no andar de baixo de milhares de lutadores sociais constrói poder popular entre as classes subalternizadas e, portanto ameaça esse mesmo poder dos de cima. Tampouco lançamos nossas energias apenas na negação dessa proposta burguesa de fazer política. Estamos dizendo que as eleições não vencerão o governo reacionário, entreguista e ultraliberal como alguns candidatos afirmam. Temos uma proposta construtiva. Estamos em campanha afirmando que existe outro modo de fazer política e que isso exige a nossa participação enquanto classe oprimida não para votar de 4 em 4 anos, mas para poder lutar pelos nossos interesses organizadamente e diretamente, hoje, amanhã e depois, em um projeto de longo prazo, que permeie nosso cotidiano, reconstruindo o tecido social que há muito tempo vem sendo puído. É a nossa tática para a conjuntura. É o nosso ‘Só o Povo salva o Povo’. A Campanha de Luta por Vida Digna é para nós da CAB o meio que encontramos para junto com outros e outras lutadoras sociais da cidade, do campo e da floresta atuar nessa conjuntura adversa.

O Estado enquanto organismo político das classes dominantes não é reiniciado a cada 4 anos. As classes dominantes são dominantes não porque vencem eleições, mas porque controlam recursos, territórios, possuem o monopólio da violência, são proprietários dos meios de produção e comunicação. Seu poder é material e não eleitoral. A margem de manobra que existia à época do pacto de classes petista não existe mais na atual conjuntura. Ela está cada vez mais restrita e os de cima não querem mais conceder tanto espaço para mudanças. O Estado Policial de Ajuste não será modificado eleitoralmente, isso exige a luta dura e combativa nas ruas, como ocorreu em insurreições populares no Equador, Chile e em outros países do nosso continente.

Dessa forma, ao contrário da esquerda institucional que vem focando seu trabalho na disputa das eleições enquanto há uma insatisfação gritante de setores das classes oprimidas com esse instrumento da burguesia, nós queremos ajudar a traduzir essa insatisfação em organização e mobilização de classe.

Só assim poderemos contrapor uma ofensiva revolucionária e anti-sistêmica dos de baixo. As condições precisam ser criadas desde já. E é a luta popular e a ação direta contra o aumento do custo e a piora das condições de vida e contra as violências desse sistema que podem abrir caminho nesse horizonte.

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