O Especifismo como Forma de Organização Anarquista

catadores2O especifismo é uma forma de organização anarquista. Apesar de o termo ter sido forjado recentemente pela Federação Anarquista Uruguaia (FAU), refere-se a formas de organização propostas pelos clássicos anarquistas desde o século XIX e que são defendidas até hoje, no Brasil e em outros lugares do mundo.

Sua primeira origem pode ser identificada nas posições orgânicas de Bakunin, tanto em relação às organizações populares – o que materializou em sua defesa de um determinado modelo para a Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT) –, quanto em relação à organização política revolucionária – que se materializou na teoria e na prática em torno da Aliança da Democracia Socialista (ADS). Sua segunda referência pode ser considerada nas posições de Malatesta, tanto em relação às organizações populares – e toda a discussão que ele realizou em relação ao movimento operário e ao sindicalismo –, quanto em relação à organização específica anarquista, que ele chamou de “partido anarquista”. Ao longo do tempo esta teoria foi sendo contrastada com a realidade, e outros elementos foram sendo incorporados. Hoje, para nós, fazem parte de “caldo organizacional” que compõe o especifismo outras posições como a dos russos do Dielo Trouda que estiveram em torno do projeto da Plataforma, a dos latinos da FAU, dos organizacionistas como Neno Vasco, José Oiticica e Domingos Passos, que atuaram no Brasil no início do século XX e também militantes já falecidos que defenderam posições semelhantes e que puderam tratar do tema com a nossa geração: Antônio Martinez, Jaime Cubero e Ideal Peres.

Historicamente, a discussão em torno da Plataforma colocou em campos distintos duas propostas organizacionais do anarquismo. Uma primeira, já citada, que foi proposta pelos russos exilados na França, a Plataforma de 1926, e outra, que surgiu como resposta à Plataforma e que foi formalizada em dois momentos diferentes: primeiramente por Sebastièn Faure em 1928 e por Volin em 1934, ambos em documentos homônimos chamados “A Síntese Anarquista”. Na América Latina, diferentemente de outras localidades do mundo em que há uma tradição anarco-comunista claramente inspirada na Plataforma, o modelo de organização que se diferencia da síntese é o especifismo que, apesar das influências que possui da Plataforma, não pode resumir-se a ela.

O especifismo caracteriza-se, na prática, pela defesa de dois eixos fundamentais: a separação entre a organização anarquista e os movimentos populares (o que se chama normalmente de separação entre os níveis político e social de atuação) e a prática prioritária de trabalho e inserção social, no seio das lutas sociais. No entanto, não é só isso. Hoje, o especifismo inclui uma série de outras concepções que determinam este “nossa” forma de organização anarquista. Vejamos algumas delas.

Entendemos o anarquismo como uma ideologia que, neste sentido, deve possuir, necessariamente, uma prática política com intenção de transformação social. Esta ideologia nasce em meio às lutas de classe do século XIX e representa as aspirações de um determinado setor do povo, ideologia esta que, ao mesmo tempo em que emerge da sociedade, volta a ela em forma de prática organizada para buscar a revolução social e o socialismo libertário. Estes objetivos de tipo finalista, a nosso ver, só chegarão por meio de uma mobilização social, ampla e popular, que consiga acumular força e promover a transformação – que não acreditamos ser decorrente das contradições internas do próprio capitalismo, mas fruto da vontade do povo organizado. Por estes motivos, esta nossa concepção de anarquismo não tem nada de individualista.

Desta forma, organização para nós é uma questão central, imprescindível para um processo revolucionário consistente que pavimente as vias de uma nova sociedade. E trabalhamos a organização para a transformação social a partir de dois níveis: a organização específica anarquista e a organização dos movimentos populares.

A organização específica anarquista possui caráter de minoria ativa, associando militantes no nível político-ideológico e cujo trabalho principal se dá no seio dos movimentos populares. Estes, para nós, não devem caber dentro de uma ideologia determinada, mas organizarem-se sobre a necessidade e possuir diversas ideologias em seu seio. Toda nossa perspectiva de organização baseia-se nestes dois níveis onde nos associamos, na organização anarquista, por nossas afinidades ideológicas, e nas organizações populares, por nossas necessidades como trabalhadores.

A organização específica anarquista possui objetivos determinados, que se refletem nas atividades e no perfil de seus militantes. Ela funciona com uma lógica que chamamos de “círculos concêntricos”, que determina posições claras para cada militante na organização. Há posições em que há maior comprometimento, e consequentemente maior poder de decisão – o que poderíamos chamar de um “núcleo” militante orgânico –, e posições em que há menos comprometimento e menor poder de decisão, como as posições de apoio ou colaboradores. Geralmente, os militantes orgânicos desenvolvem uma atividade interna (nos secretariados: organização, formação, comunicação, relações, finanças e infra) e outra externa, em uma das frentes, que são os setores organizados para o trabalho social que possuem como objetivo estimular, organizar, formar as organizações populares, influenciando-as a terem um conjunto de características, que poderíamos chamar “libertárias” (em termos de metodologia), que lhes possibilitará realizarem da transformação social. Para isso, é necessário que os militantes tenham responsabilidade e autodisciplina para levarem a cabo o trabalho cotidiano. Características da organização anarquista que também marcam o especifismo são: as unidades em termos de teoria, ideologia, estratégia e tática; a ênfase no trabalho social e a realização de outras atividades como propaganda, teoria, formação, estratégia, relações etc.

As organizações populares (movimentos sociais, sindicatos, etc.) são, na maioria dos casos, expressões de uma sociedade de classes, dividida entre capitalistas e trabalhadores, que se evidencia em um processo de luta de classes. Por evidenciar as contradições do sistema e significar certa articulação dos setores populares nas lutas do povo, as organizações populares possuem um potencial transformador. É por meio da atuação nestas organizações e da criação de novas que entendemos poder dar ao anarquismo sua real função, que é de estimular e servir como fermento das organizações populares. No entanto, hoje a grande maioria destas organizações está burocratizada e, portanto, tem este potencial de transformação limitado. No contato com elas, o objetivo dos anarquistas é lutar para que estes movimentos sociais desfaçam-se destes laços burocráticos, ampliem-se o máximo possível, aumentem seu nível de combatividade e de autonomia. Para que elementos como autogestão e ação direta possam contribuir com processo de luta que aponte para uma revolução social. Para nós, é somente a luta popular, este “nível social” conhecido outrora por representar os “movimentos de massa” que tem condições de promover a transformação.

É o conjunto das organizações populares, unidas umas com as outras, e da organização anarquista que pode constituir o meio que levará ao fim desejado por nós – o socialismo libertário. Esta estratégia está na base da concepção especifista de organização anarquista.