As Alianças e a Necessidade do Programa e da Estratégia

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“…[uma] política de alianças correta requer, primordialmente,
uma visão programática sólida por parte do movimento anarquista.”
José Antonio Gutiérrez Danton

Precisamos ter muito claro o que defendemos para quando houver a necessidade de firmarmos alianças com outros setores da esquerda para não sermos utilizados como meros tarefeiros destes grupos, servindo a propósitos que não são os nossos. Para isso, deveremos ter uma estratégia que esclareça qual a razão de ser destas alianças e qual é a nossa posição nela até aonde vamos e não vamos. O que importa, neste caso, é termos um planejamento adequado e objetivos bem definidos, discutindo neste contexto, até onde ir nas possíveis alianças.

A estratégia determina um caminho a seguir (e neste contexto, ou ainda no contexto das táticas, deve clarear o porquê de fazermos uma aliança), diferente do programa que é algo formaliza a estratégia da organização.

A elaboração do programa leva tempo (visto que temos de ter varias questões já bem claras para toda organização) a estratégia já é necessária muito antes, e pode ser elaborada antes do programa também. Sempre devemos trabalhar com estratégia, se não queremos cometer o erro já citado de nos tornar tarefeiros de outros grupos ou de ficar realizando uma série de tarefas que não se complementam ou que fazem com que haja perda de energia e esforço da organização.

A estratégia é composta por três questões muito importantes (que mais tarde devem ser melhor formalizadas pelo programa):

  • Conjuntura, ou seja, o contexto em que a organização se encontra;
  • Longo Prazo, a transformação que ela deseja realizar e os objetivos;
  • Tática, qual caminho ela deve tomar para alcançar esta transformação: curto prazo, médio prazo, longo prazo.

O programa não deve ser algo cristalizado, permitindo que ele seja relido e alterado caso vejamos modificações nas análises ou em caso de o contexto se transformar profundamente.

O programa não deve ser algo que aglutine em torno da crítica (ao estado, ao capitalismo etc.), mas sim em torno da proposta construtiva, que em nosso caso é a transformação a sociedade atual pelo movimento de massas, em uma sociedade socialista e libertária.

As organizações que se agrupam em torno da crítica sofrem um desgaste desnecessário onde “cada um rema para um lado” e se tornam, como coloca Nestor Makhno, “um agregado, que eventualmente se desintegraria ao entrar em contato com a realidade”.

A Negação do Sectarismo

O sectarismo tem sido um problema muito grande em alguns grupos e indivíduos anarquistas que se negam a trabalhar em qualquer lugar em que haja pessoas com concepções diferentes das nossas. Como diz José Antonio Gutiérrez, esta posição está muito longe de ser transformadora e acaba constituindo-se uma prática mais parecida com as de torcidas de futebol, que não têm nenhum projeto, a não ser o de se afirmar como inimigo do outro.

– A autocomplacência

Este sectarismo também resulta na incapacidade de fazer autocríticas, acreditando que os erros nunca foram dos anarquistas e sim dos outros. Por algum motivo misterioso, estas pessoas acreditam que desde o nascimento do anarquismo no séc. XIX os anarquistas nunca cometeram erros, mas somente sofreram com os erros dos outros.

Os exemplos da Revolução Russa e da Espanhola figuram bem essa falta de autocrítica, quando os anarquistas não reconheceram sua parcela de culpa na derrota do anarquismo. Podemos citar os grupos Dielo Trouda no caso russo e dos Amigos de Durruti na Espanha como exceções à regra, pois fizeram autocríticas pertinentes.

Outro exemplo disto foi a perda do vetor social do anarquismo no Brasil. A falta de uma organização ideológica anarquista fez com que a crise do sindicalismo fosse também a do anarquismo. Ou seja, independente do contexto, os anarquistas também deveriam fazer uma autocrítica sobre a falta da organização anarquista neste contexto de crise do anarquismo. No entanto, a grande maioria dos anarquistas joga a culpa na constituição do PCB (Partido Comunista Brasileiro), em 1922, no governo Vargas etc, mas não considera a falha dos próprios anarquistas.

– Os Anarquistas nas “Torres de Marfim”

Este sectarismo também levou (e ainda leva) o anarquismo a se meter em guetos isolados, por muitos anarquistas não aceitarem trabalhar com pessoas com outras idéias.

Muitos destes anarquistas ficam frustrados porque o povo não se torna espontaneamente anarquista. Os sectários não vêem que é um erro deles não estar no seio do povo, influenciando suas lutas, e acabam fazendo disso uma clara demonstração de elitismo, culpando o povo por não realizar nosso projeto por nós, sem que ao menos estejamos em suas lutas.

Esta posição tem sido muito nociva ao anarquismo que se propõe como uma opção na luta de classes. Ela só faz com que o anarquismo fique preso a círculos acadêmicos, ou mesmo de discussões teóricas sem fim, distantes da luta política e da luta de classes em suas “Torres de Marfim”. Muitos deste ainda se sentem dignos de analisar e criticar essas lutas, ou seja, são espectadores privilegiados das lutas e da miséria do povo.

– A ”Propaganda pelo Fato” e o Foquismo

Houve momentos em que os anarquistas se sentiram dignos de lutar pela emancipação do povo, mas sem estar com o povo. A “propaganda pelo fato”, adotada nos fins do século XIX, ilustra essa postura. Sem estar com o povo, já que o anarquismo havia perdido contato com as lutas populares, e sem perspectivas de se aproximar dele, os anarquistas defensores da propaganda pelo fato encontram resposta na violência individual ou de pequenos grupos sem apoio popular.

Esta postura se distancia da concepção que sempre foi defendida pelos anarquistas de que é o povo que deve emancipar-se. Não são os agentes externos, descolados do povo, que têm essa missão, como pensam os vanguardistas autoritários. As posturas destes anarquistas se aproximam muito do que é conhecido como “foquismo” na América Latina. Ou seja, um conjunto de militantes que quer lutar pelo povo, sem estar no seio do povo ou mesmo ter o seu apoio.

Com Quem nos Aliar

Sabemos que não há uma fórmula preestabelecida para esta questão. Com uma boa uma análise do contexto em que estamos inseridos, poderemos dizer com quem podemos e não podemos nos aliar.

Discordamos totalmente do principio de que o inimigo do nosso inimigo é nosso amigo, como o exemplo dado por Gutiérrez de anarquistas que apoiaram o golpe de Pinochet sob Salvador Allende, ou de anarquistas que entraram nas FARC’s (que dentre outras coisas invadem aldeias indígenas e as colocam sob o seu jugo), simplesmente porque elas são uma organização “revolucionaria”.

Também não podemos enxergar inimigos onde estes não existem, como por exemplo, movimentos populares que têm um forte sentimento religioso, ou “facções” da igreja que são ligadas à esquerda e a um movimento social. Um exemplo deste erro foi o dos anarco-sindicalistas da COM (Casa Del Obrero Mundial) no México que, pelo seu ateísmo purista, se posicionou contra um movimento claramente revolucionário como era o dos zapatistas simplesmente porque as pessoas dentro dele eram religiosas (por isto vistas como “inimigas”) e preferiram se ligar a Carranza.

– As Alianças com a esquerda autoritária

Alianças com os “autoritários” podem se dar no nivel social quando esse exirgir e nunca no nível político.

Traição dos nossos princípios em um aliança é quando devido a esta aliança começamos não mais a agir como anarquistas, quando, por exemplo, constituímos a chapa de um partido para as eleições, quando mantemos relações orgânicas com grupos que adotam práticas “centralizadoras” que não dão valor a mobilização e a decisões tomadas pela base, e apoiamos ou não criticamos essas práticas.

As alianças com estes grupos devem ser feitas unicamente para relações de curto/ médio prazo, sempre sabendo e deixando bem claro que nosso projeto de longo prazo é bem diferente do deles. No entanto, para questões pontuais como por exemplo mobilizar uma comunidade para não ocorrer um despejo, será sempre necessário fazer alianças. Questões imediatas como esta, podem necessitar uma aproximação com outros setores da esquerda. Quando a aliança começar a comprometer nossos princípios ela pode (aliás deve) ser desfeita. Portanto, o limite das alianças geralmente está nos nossos princípios.

A Diferença de Tática e Princípios

Não podemos confundir princípios com tática. Isso é fundamental para pensar em que momento e com quem iremos nos aliar, por exemplo, é princípio do anarquismo que a transformação deve ser feita pelas classes exploradas (a “periferia”) e pelas bases dos movimentos destas classes, nos ligar a elementos do estado ou da burguesia (o “centro”) acreditando que serão estes os agentes de alguma transformação social, não é mera questão tática, mas sim um claro desvio de princípios. Por mais que continuemos a nos dizer anarquistas, quando fazemos este tipo de desvio não agimos mais como tal.

Também deveremos ter o cuidado, quando estamos em um movimento social hierarquizado, de saber onde está o centro e onde está a periferia acreditando que deve ser a periferia deste movimento que nós devemos dar importância (a base). Também devemos ter o cuidado de saber que quando uma liderança é legitimada pela base e acata as decisões da mesma, ela não deve ser vista como um novo centro, e sim como parte da base e que podemos tranqüilamente nos ligar a ela.

Daí a importância de uma estratégia clara para não nos tornarmos mera mão-de-obra barata de grupos autoritários, que priorizam o centro em detrimento da periferia, e nos distanciarmos dos nossos princípios e objetivos.

A tática, diferentemente dos princípios, tem maior flexibilidade e está ligada ao momento em que se atua. Portando, diferentes momentos implicam diferentes táticas – que são as ações que têm por objetivo concretizar a estratégia. Portanto, uma mudança tática pode ser, por exemplo, a modificação do setor dos movimentos sociais que estamos mais próximos. Já que é melhor nos aliarmos com os setores mais autônomos e combativos, se um determinado movimento se liga ao governo, e fica completamente burocratizado, podemos (e devemos) escolher outros setores para nos aliar. Esta é uma mudança tática, ligada à circunstância, e não uma mudança de princípios, que neste caso continuam os mesmos.

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Nosso norte é a emancipação das classes oprimidas, o que a nosso ver só acontecerá com a transformação da sociedade atual para uma sociedade socialista libertária. Nosso método de atuação é por meio da interação entre a organização anarquista e os movimentos populares. Com esta relação mútua o objetivo é aumentar permanentemente a força das organizações populares, de maneira a criar condições de superação da sociedade atual. Para pensarmos nas alianças, devemos saber o que de fato ira contribuir para este nosso projeto.

Para darmos continuidade à criação de nossa organização, temos de ganhar experiência no trabalho social e continuar a crescer em termos de maturidade. Experimentar e  conhecer melhor o trabalho. No contexto destes trabalhos, aos poucos, devemos ir definindo nossa estratégia e aos poucos pensar em nosso programa. Portanto, nossa conclusão é que para podermos aprofundar esta questão das alianças, temos, primeiramente, que aprofundar a discussão sobre estratégia e sobre programa.