A Luta de Classes em Bauru

Em Primeiro de Agosto de 1896, nasceu a cidade de Bauru, no centro-oeste paulista. A historiografia burguesa tenta narrar uma história de desenvolvimento, crescimento e expansão, uma história que esconde conflitos, autoritarismo e genocídio.

As origens coloniais e racistas da cidade

As terras bauruenses nunca foram inabitadas, pelo contrário, pertenciam aos indígenas da etnia Kaingang. Quando as primeiras fazendas de café se instalaram na região, os “bugreiros”, matadores profissionais, passaram a conduzir ataques aos povos originários.

A exportação de café logo levou à necessidade de uma potente ferrovia, e três empresas se instalaram na região – Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, Companhia Paulista e Estrada de Ferro Sorocabana. Os interesses dos acionistas europeus, em sua maioria da elite inglesa, logo levou a uma guerra de extermínio contra a população local, e milhares de Kaingangs foram mortos.

Os donos das fazendas e das ferrovias bauruenses são elogiados nos livros de história como os fundadores do município, inovadores e empreendedores, tendo seus nomes atribuídos a diversas ruas e praças, como o engenheiro Machado de Melo ou a família Leite.

O movimento operário e a cidade ferroviária

A ferrovia exigia mão-de-obra, e logo trabalhadoras e trabalhadores de todo o estado de São Paulo vieram para a região, levando ao seu crescimento e, também, ao acirramento dos conflitos de classes.

O Sindicato dos Ferroviários foi a maior importante e notável organização operária da cidade, e a influência anarquista era decisiva. Não apenas foram estabelecidas Escolas Modernas (de educação racionalista e científica destinadas ao operariado), como lutas radicais eram realizadas, como a grande greve ferroviária de 1914 contra o atraso de salários. Militantes bauruenses também se envolveram na iniciativa da Aliança Anarquista, tentativa de construção de uma organização específica no contexto da greve geral de 1917.

Desde então o Sindicato dos Ferroviários cumpriu um importante papel ao longo do século XX. Durante os anos 30, atuou como oposição de esquerda contra os setores burgueses ligados a Getúlio Vargas e àqueles alinhados à burguesia paulista de 32. Em 3 de Outubro de 1934, em uma prévia da posterior Revoada dos Galinhas Verdes, sindicalistas do movimento ferroviário combateram nas ruas os integralistas durante a vinda do fascista Plínio Salgado à cidade.

Quase dez anos depois, em 1949, a categoria ferroviária organizou uma nova greve, duramente reprimida no evento conhecido como “Chacina de Triagem”, com mortos e feridos. Quando o golpe de 64 é deflagrado, o Sindicato dos Ferroviários convoca uma grande assembleia massiva para organizar a resistência operária.

Memórias de cima e de baixo

No ano de 1962, a Frente Anti-Comunista (FAC), um agrupamento de extrema direita, foi criada com a intenção de perseguir pessoas de esquerda. Um de seus centros de articulação foi a Instituição Toledo de Ensino (ITE), faculdade fundada por simpatizantes do integralismo, na qual, mais recentemente em 2018, foram lançadas as candidaturas de direita de João Doria (PSDB) e Rogério Chequer (NOVO).

Atualmente, diversas famílias empresariais que colaboraram com os militares e paramilitares de extrema-direita se mantém fortes, organizadas e com grande influência na cidade, uma prova de que a mudança do regime não mudou a estrutura da sociedade. O apoio político da burguesia bauruense aos projetos conservadores de João Doria, Suellen Rosim e Jair Bolsonaro são a comprovação de que os valores da elite capitalista não se alteraram nesse período de mais de um século.

Do nosso lado, a antiga Estação Ferroviária da Noroeste do Brasil se tornou lar de uma série de grupos culturais da cidade, em sua maioria progressistas, e um símbolo da histórica resistência sindical. É por essa razão que políticos de direita e grupos empresariais se movimentam, ano após ano, com propostas de desmanche desse espaço, muitas vezes sugerindo a privatização. A burguesia bauruense quer apagar a memória das lutas na cidade.

A construção do Poder Popular, ontem e hoje

Não pretendemos esgotar nesse texto todas as lutas da cidade, que incluiu outros importantes eventos, como o congresso de trabalhadores da saúde de 1987, que marcou o início do movimento antimanicomial brasileiro. Buscamos jogar um pouco de luz sobre a valorosa história bauruense das e dos de baixo, dos valentes Kaingangs aos bravos Ferroviários, e demonstrar que a resistência popular do povo de Bauru segue viva.

Ocupações de pessoas sem-teto, mobilizações estudantis e greves sindicais tomam as ruas ao lado do movimento negro, das feministas, da comunidade LGBTI+ e dos povos originários. E nós, da Organização Anarquista Socialismo Libertário (OASL), temos orgulho de contribuir com a manutenção dessas rebeldias e do caminhar rumo a uma sociedade livre e igualitária.

Nesse Primeiro de Agosto, comemoramos a resistência dos oprimidos, dos perseguidos, de quem se recusou abaixar a cabeça para os colonizadores, os patrões e os ditadores!

Viva o Povo Bauruense! Vivam as Classes Populares!
Pela Construção do Poder Popular! 

Organização Anarquista Socialismo Libertário

1º de Agosto de 2021

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