104 anos do assassinato do sapateiro Martinez. Viva a Greve de 1917!

Lembramos o 9 de Julho não como a data de uma guerra dirigida pelas elites, como marca o calendário oficial do estado de São Paulo, mas como uma data de luta das classes oprimidas contra a exploração dos patrões e a brutalidade da repressão estatal. Em 9 de Julho de 1917, o sapateiro anarquista José Ineguez Martinez, do grupo Jovens Incansáveis, era assassinado pela polícia em uma manifestação que exigia condições dignas de trabalho. A resposta ao crime foi uma mobilização ainda maior da classe trabalhadora, na maior greve geral que esse país já viu.

O sapateiro Martinez tinha apenas 21 anos, era de origem espanhola, e ligado às organizações sindicalistas revolucionárias da época, estratégia anarquista para o movimento popular daquele momento. Naquele 9 de julho, ele participava de um protesto na porta da fábrica Mariângela, no Brás, quando o ato foi atacado pela cavalaria da polícia. O trabalhador foi atingido com um tiro no estômago, levado para a Santa Casa, mas morreu no mesmo dia. Em 11 de julho acontecia seu funeral, no Cemitério do Araçá, que havia sido convocado na véspera pelos jornais operários como uma grande manifestação. O anarquista Edgard Leuenroth relata como aconteceu:

“O enterro dessa vítima da reação foi uma das mais impressionantes demonstrações populares até então verificadas em São Paulo. Partindo o féretro da Rua Caetano Pinto, no Brás, estendeu-se o cortejo, como um oceano humano, por toda a avenida Rangel Pestana até a então Ladeira do Carmo em caminho da Cidade, sob um silêncio impressionante, que assumiu o aspecto de uma advertência. Foram percorridas as principais ruas do centro. Debalde a polícia cercava os encontros de ruas. A multidão ia rompendo todos os cordões, prosseguindo sua impetuosa marca até o cemitério. À beira da sepultura revezaram os oradores, em indignadas manifestações de repulsa à reação. No regresso do cemitério, uma parte da multidão reuniu-se em comício na Praça da Sé; a outra parte desceu para o Brás, até à rua Caetano Pinto, onde, em frente à casa da família do operário assassinado, foi realizado outro comício.”

Iniciada por mulheres trabalhadoras, que tiveram grande protagonismo, a greve se espalhou rapidamente por toda a cidade, e estima-se que chegou a ter a adesão de 100 mil trabalhadores, em um processo que colocou de joelhos as classes dominantes. A greve geral foi encerrada em 16 de julho, depois de obter compromissos como aumento salarial, redução do preço dos alimentos, e medidas para impedir o trabalho de crianças e o trabalho noturno das mulheres. A mobilização em São Paulo, somada à força do sindicalismo revolucionário no país e às notícias da Revolução de Fevereiro, na Rússia, influenciou grandes greves e processos insurrecionais em outros estados, como Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro.

Nesse processo de reconstrução do vetor social do anarquismo no país, trabalhado pela OASL e pelas demais organizações especifistas da Coordenação Anarquista Brasileira, resgatamos a memória da Greve Geral de 1917 como um momento em que o povo oprimido, desde baixo, lutou bravamente por melhores condições de vida, e com uma perspectiva revolucionária fez manifestações massivas contra as classes dominantes, vislumbrando um mundo novo. Pela memória de José Martinez e das dezenas de milhares de trabalhadores e trabalhadoras que protagonizaram aquela greve, prestamos homenagem!

JOSÉ INEGUEZ MARTINEZ, PRESENTE!

VIVA A GREVE GERAL DE 1917! VIVA A CLASSE TRABALHADORA!

Organização Anarquista Socialismo Libertário
9 de Julho de 2021

Links:

Dealbar: Traços biográficos de um homem extraordinário – http://ccssp.com.br/arquivos/Jornais/Dealbar/dealbar%2017.pdf

OASL: 99 anos da Greve Geral de 1917 – https://anarquismosp.wordpress.com/2016/07/16/99-anos-da-greve-geral-de-1917/

OASL: O protagonismo das trabalhadoras na Greve Geral de 1917 – https://anarquismosp.wordpress.com/2020/05/03/o-protagonismo-das-trabalhadoras-na-greve-geral-de-1917/

ITHA: Dossiê Anarquismo e Sindicalismo no Brasil da Primeira República – https://ithanarquista.wordpress.com/anarquismo-e-sindicalismo-no-brasil-da-primeira-republica/

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