Marília: Bolsonarismo comanda o cenário político

“Nas pequenas como nas grandes sociedades, excetuando a força brutal, a qual não nos diz respeito no caso em questão, a origem e a justificativa da autoridade residem na desorganização social. Quando uma coletividade tem uma necessidade e seus membros não estão espontaneamente organizados para satisfazê-la, surge alguém, uma autoridade que satisfaz esta necessidade servindo-se das forças de todos e dirigindo-as à sua maneira. Se as ruas são pouco seguras e o povo não sabe se defender, surge uma polícia que, por uns poucos serviços que presta, faz com que a sustentem e a paguem, impõe-se a tirania. Se há necessidade de um produto e a coletividade não sabe se entender com os produtores longínquos para que eles enviem esse produto em troca por produtos da região, vem de fora o negociante que se aproveita da necessidade que possuem uns de vender e outros de comprar e impõe os preços que quer a produtores e consumidores.” (Errico Malatesta, A Organização II) – https://anarquismorj.wordpress.com/organizacao-ii-a-errico-malatesta/

A cidade de Marília, no interior de São Paulo, desde o inicio da pandemia teve problemas em assumir os riscos do vírus covid-19. Não porque parte de sua população não estivesse com medo, aliás máscaras e álcool em gel esgotaram já no inicio de abril como em outras cidades do estado de SP; mas porque mesmo que o povo estivesse com pavor reconhecendo o sentido trágico das longas semanas e meses que viriam pela frente, o atual prefeito da cidade (e candidato à reeleição) Daniel Alonso (PSDB), tratou de utilizar-se de uma lei que dá autoridade ao governo municipal decidir sobre as reestrisções locais para pôr um fim ao isolamento social dois meses após o decreto de quarentena dado pelo governo estadual, reabrindo os comércios a partir do dia 1 de Junho em defesa da econômia às custas da saúde do povo. Não demorou para que essa postura de descaso da prefeitura diante o coronavírus refletisse no cotidiano dos moradores da cidade.

Hoje, depois de meses de pandemia, e depois de meses sem quarentena de fato, grande parte do comportamento dos marilienses em relação à prática política se concentra nas eleições e na eleição de candidatos conservadores, o que revela a despolitização geral da cidade que deve ser combatida. A somatória de um governo como o de Alonso com esse ideário dos cidadãos resultou em uma normalização do período pandêmico que estamos enfrentando, ao ponto de, pós a reabertura, a cidade voltar aos eixos como se nada estivesse acontecendo. Não é incomum, por exemplo, ouvirmos trabalhadores de comércio expostos à condições de trabalho precárias, dizendo que os clientes recusam-se a entrar nas lojas com máscara. Com isso, podemos dizer que a calamidade está atestada: em primeiro plano por uma falta de conscientização política e em segundo plano no que isso reverbera para o prolongamento da pandemia.

As referidas eleições municipais no horizonte contarão com 9 candidaturas formalizadas. No entanto, a disputa deverá girar entre Daniel Alonso, atual prefeito da cidade, e Abelardo Camarinha (Podemos), ex-prefeito, ex-deputado, e com longo histórico familiar em Marília. A cidade ainda possui forte apoio ao governo bolsonarista, e todos os candidatos da direita buscam se ligar à sua figura para garantir mais apoio popular.

Daniel Alonso , como dito, ainda no começo da pandemia, determinou a reabertura dos comércios e diversos outros setores antes de todo o resto do Estado, a ponto de ser criticado pelo governador e colega de partido, João Dória (PSDB). Além disso, durante os seus 4 anos de gestão, teve atuação típica de adulação ao empresariado mariliense, governando para os de cima às expensas dos de baixo.

Já Abelardo Camarinha, seu “oponente”, apesar de praticarem a mesma política com faces diferentes, possui grande base na cidade devido ao histórico coronealista de sua família, tendo já três gerações dela como prefeitos de Marília. Apesar disso, vale frisar que o ex-deputado foi cassado em 2016 por propaganda política irregular, devido à utilização dos meios de comunicação de posse da família: Central Marília de Notícias, Editora Diário Correio de Marília, Rádio Dirceu de Marília (antiga Rádio Cidade de Marília) e Rádio Diário FM de Marília (Antiga Rádio Tangará de Marília), que, por sua vez, foram denunciadas pelo MPF por aquisição irregular, e chegou a ser alvo de um desdobramento da lava-jato. Também recentemente, um processo referente ao período de sua prefeitura, no começo dos anos 2000, foi julgado, com Abelardo Camarinha considerado culpado. Apesar de tudo isso, até hoje sua candidatura permanece, através de várias artimanhas judiciais.

Um terceiro nome, Juliano da Campestre (PRTB), também se coloca abertamente como candidato dos de cima, mas buscando um perfil de “gestor”, através de sua carreira como empresário, também proprietário de uma rádio, a Campestre, mas colocando de maneira mais aberta uma política conservadora de costumes, buscando apoio através de pautas como aborto, drogas, etc. No entanto, caso a candidatura de Abelardo Camarinha se mantenha até o dia da eleição, tem poucas chances reais de vencer a eleição e assumir o cargo.

A esquerda institucional possui três candidaturas: através do PT, do PSOL e do PCO. Nenhuma das três possui grande apoio, pela pouca inserção destes partidos no município. O PT possui apoio, em grande parte, da APEOESP, com seu candidato sendo o atual diretor da subsede, Juvenal Penteado, mas o Sindicato, depois de décadas de uma gestão paternalista e burocrática, possui pouca participação da base dos professores, principalmente os da ativa, e não consegue atingir estes, de maneira geral. A candidata do PSOL, Nayara Mazzini, busca base na juventude e num recente ascenso do partido em Marília, mas, sendo ainda muito recente, não teve tempo de estabelecer sua figura política e a divulgação do seu programa na cidade.

Por fim, a candidata do PCO, Lilian Miranda, tem atuação no mesmo espaço que o PT, a APEOESP, mas com menor apoio, e se apresenta como candidatura para propaganda do partido e para defesa do projeto de retomada do PT ao poder; deverá ser uma das candidatas com menos votos na cidade.

Entra ano, passa ano e vemos o mesmo cenário se repetir em relação aos reformistas da esquerda institucional; de que é possível progredir no nível político a partir da política eleitoreira, ignorando o próprio jogo liberal em que os candidatos se submetem para ampliar às chances de ser eleito. Em Marília isso também ocorre, os poucos setores da esquerda que existem, na sua maioria optam por incluir-se em projetos governistas do que estimular o trabalho social nos bairros, escolas, universidades, vilas e postos de trabalho.

Diante desse cenário de disputa entre as faces que irão oprimir trabalhadoras e trabalhadores, a saída é o que a esquerda da cidade nunca fez de fato: construir, pela base, os movimentos sociais da maneira mais ampla possível, tocando nas pautas sensíveis à população e não na disputa pelo cargo de quem irá apertar o garrote no povo.
Nessa pandemia a distância em que a população mariliense está de sua emancipação ficou evidente, por isso afirmamos que se quisermos sair desse posto inerte, devemos ir na direção contrária, não é com a eleição de um candidato de esquerda “menos pior” que esse cenário mudará, como disse Malatesta: “Como vedes, tudo vem sempre de nós: quanto menos estávamos organizados, mais nos encontrávamos sob a dependência de certos indivíduos” (Errico Malatesta, A Organização II). A saída é a construção do Poder Popular de baixo para cima, fazendo com que o povo se politize sobre os problemas que tocam diretamente os de baixo para que ele possa se organizar socialmente de maneira autônoma.

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