A defesa da ciência e da razão em uma perspectiva socialista libertária

Arthur C., militante da OASL/CAB

ilustração: Jornal A Luta – 1° de maio de 1909

(Artigo para debate, que não corresponde exatamente à posição da OASL/CAB)

INTRODUÇÃO

No século XVIII, a Europa testemunhou um movimento conhecido como Iluminismo, que questionou e desafiou as antigas instituições monárquicas, clericais e aristocráticas do sistema feudal, e defendeu o pensamento científico como a melhor ferramenta para compreender a realidade, tanto em seus aspectos naturais quanto sociais. Em maior ou menor grau, é da onda iluminista que nasceria a ordem liberal capitalista, mas também o socialismo.

Para Noam Chomsky, em “Notas sobre o Anarquismo”,

Essas ideias [de liberdade em Bakunin] vieram do Iluminismo; suas origens estão no Discurso sobre a Desigualdade de Rousseau, em Os limites da ação do Estado de Humboldt, na insistência de Kant, em sua defesa da Revolução Francesa, de que a liberdade é o pré-requisito para se alcançar a maturidade para a liberdade, não um presente a ser dado quando certa maturidade é alcançada. Com o desenvolvimento desse novo e inesperado sistema de injustiça, o capitalismo industrial, foi o socialismo libertário que preservou e ampliou a mensagem humanista radical do Iluminismo e os ideais clássicos liberais, que acabaram deturpados numa ideologia para sustentar a ordem social emergente.

Ou seja, com a deterioração do liberalismo como legitimador da nova ordem dominante – o Capitalismo – caberia ao Anarquismo manter os valores racionalistas e igualitários na luta pela construção de uma nova sociedade. Mas Chomsky não é o único a enxergar uma relação do socialismo anarquista com o chamado Século das Luzes. Quem segue em um caminho semelhante é Murray Bookchin, em seu texto “Por uma Ecologia Social”:

…não podemos deixar de revalorizar os fundamentos do eco-anarquismo de Kropotkin e os grandes ideais iluministas (razão, liberdade, força emancipadora dos ensinamentos) levados a frente por Malatesta e Berneri. Os ideais humanistas que direcionaram os pensadores anarquistas de um certo tempo devem ser recuperados em sua totalidade, e transformados na forma de um humanismo ecológico que encarne uma nova racionalidade, uma nova ciência, uma nova tecnologia.

Desde o nascimento do Anarquismo no século XIX, anarquistas sempre reconheceram a importância da razão e da produção científica, principalmente na luta contra a dominação das instituições religiosas, em especial o Clero, considerado como um setor da classe dominante. Bakunin chegou a chamar a ciência de “bússola da vida” [Deus e o Estado] e Malatesta defendeu o ensino científico a todas as pessoas como proposta política [Escritos Revolucionários], ambos preocupados em construir uma oposição ao controle e monopólio do conhecimento que estava concentrado pelo idealismo burguês, aristocrático e clerical. De igual forma, anarquistas por todo o mundo organizaram as chamadas escolas modernas, tendo como base garantir acesso a uma educação racionalista conforme proposto por Ferrer y Guardia.

A ciência também foi encarada como uma arma contra o nacionalismo e o racismo. O célebre anarquista alemão Rudolf Rocker [Nacionalismo e Cultura] denunciou como o nazismo, desejando construir um mito de uma falsa superioridade branca, rejeitava importantes descobertas no campo da História e da Antropologia sobre a influência dos povos africanos e asiáticos sobre a formação da cultura europeia.

Camilo Berneri, anarquista italiano, se posicionou de forma parecida:

O fascismo, triunfo do irracional, fez seus os mitos mais decaídos da etnologia pré-científica. Um dos teóricos do hitlerismo (admitindo que isso se possa considerar um corpo de doutrinas), Ernest Krieck, no seu livro Educação nacional política (p. 17) proclama a necessidade de submeter a ciência à política nacional-socialista, ou seja, declara a morte da ciência. [O Delírio Racista]

É inegável que anarquistas sempre encararam a ciência como uma ferramenta emancipadora, e entendiam o seu projeto político socialista libertário como possuindo bases racionalistas para pensar e intervir na realidade.

A Vida – RJ – 1914-15
CIÊNCIA COMO FERRAMENTA

Afirmar que a Esquerda e o Socialismo, em geral, e o Anarquismo, em particular, se estruturaram com base no racionalismo e na defesa da ciência, não é, de modo algum, fechar os olhos para os crimes cometidos com argumentos científicos. No processo de ascensão e de estabelecimento no poder, a Burguesia liberal se utilizou de discursos darwinistas para legitimar a colonização dos continentes não europeus, submetendo povos não brancos ao seu domínio. Milhões de pessoas na África, na Ásia e nas Américas foram submetidas à escravidão e ao extermínio sob essas alegações pseudocientíficas.

Também utilizou o discurso de “sobrevivência do mais apto”, elaborado pelo liberal-conservador Herbert Spencer, para justificar as desigualdades sociais através da concorrência e disputa entre as pessoas. Cesare Lombroso, renomado médico italiano, chegou a defender que a criminalidade (e o anarquismo) podiam ser identificados pelo estudo do crânio do indivíduo, buscando uma determinação biológica do comportamento. No Brasil, o racismo científico surge na República Velha, controlada pelas oligarquias liberais de SP e MG, e se mantém até no Estado Novo de Vargas. Sob esse discurso racial, as elites brasileiras buscaram o “embranquecimento” do povo brasileiro através do estímulo da imigração.

A denúncia desse uso racista e oportunista da ciência já era realizada por Piotr Kropotkin em sua obra Ajuda Mútua, no qual questionou essa distorção do pensamento evolucionista de Darwin pelos interesses das classes privilegiadas, contrapondo uma outra leitura pautada na solidariedade e na cooperação. Não muito antes, Mikhail Bakunin – um ardente defensor do método científico – já afirmava sobre os perigos de um governo legitimado na ciência.

Um corpo científico, ao qual se tivesse confiado o governo da sociedade, acabaria logo por deixar de lado a ciência, ocupando-se de outro assunto; e este assunto, o de todos os poderes estabelecidos, seria sua eternização, tornando a sociedade confiada a seus cuidados cada vez mais estúpida e, por consequência, mais necessitada de seu governo e de sua direção. […] Disso resulta que a ciência tem por missão única iluminar a vida, e não governá-la. O governo da ciência e dos homens de ciência, ainda que fossem positivistas, discípulos de Auguste Comte, ou ainda discípulos da escola doutrinária do comunismo alemão, não poderia ser outra coisa senão um governo impotente, ridículo, desumano, cruel, opressivo, explorador, malfazejo. [Deus e o Estado]

Importante observar que, no século XIX, o positivismo comteano se tornava um dos pilares de pensamento da ordem burguesa, recrutando adeptos liberais de peso, como John Stuart Mill. Comte via as greves operárias como uma desordem e um entrave ao “progresso”, e defendia a necessidade de uma dura repressão ao movimento operário. Até os dias atuais, essa concepção teórica se mantém sob o manto do Neopositivismo, influenciando todas as áreas de pensamento humano (Ciências Sociais, Direito, História, Psicologia, etc), quase sempre em busca da conservação da ordem burguesa.

O marxismo também se afirmava, e se afirma até hoje, “científico”. O marxismo ortodoxo, e de certa forma dogmático, se colocou como superior às outras escolas socialistas devido ao seu método teórico que supostamente lhe concedia maior acesso à compreensão da realidade. Durante o período stalinista, cientistas russos que defendiam a importância das descobertas da genética foram acusados de estarem influenciados por ideias burguesas, e acabaram enviados para os campos de concentração conhecidos como gulags. O lysenkoismo, suposta teoria biológica condizente com o marxismo, resultou em um desastre para a agricultura soviética.

O liberalismo positivista e o socialismo marxista, quando estruturados no controle dos Estados, demonstraram a diversidade de crimes que poderiam ser cometidos em prol de uma “análise científica” da realidade.

Para Murray Bookchin, a ciência não deve ser culpabilizada pelos crimes da sociedade capitalista – seja liberal, seja de Estado. Ela é uma ferramenta, e como tal, não deve ser tratada a priori como boa ou má. Bookchin polemizou com aqueles que, como positivistas e marxistas, viam o método científico como carro-chefe de uma sociedade tecnocrática, mas também foi enfático com quem negasse a racionalidade em prol de um reacionarismo anacrônico.

Em todo mundo aparecem inquietantes alternativas aos movimentos ecológicos. Por um lado, está se difundindo, na América do Norte assim como na Europa, uma espécie de enfermidade espiritual, uma atitude contra iluminista. Com o nome de retorno a natureza, evocam-se atávicos irracionalismos, misticismos, religiosidades declaradamente pagãs. Culto das divindades femininas, tradições paleolíticas, rituais ecológicos vão se formando em nome de uma nova espiritualidade. Esse retorno do primitivismo não é um fenômeno inócuo. Frequentemente esta embebido de um pérfido neo-malthusianismo, que substancialmente propõe deixar morrer de fome de preferência as vitimas do Terceiro Mundo, com a finalidade de diminuir a população. A Natureza, afirmam, deve estar livre para continuar o seu curso. A fome não é causada pelos problemas agrários nem pelo saque das grandes empresas, nem pelas rivalidades imperialistas, nem pelas guerras civis nacionalistas, e sim pela superpopulação. Deste modo os problemas ecológicos são esvaziados de seu conteúdo social e reduzidos a mística interação das forcas naturais, frequentemente com acentos racistas que cheiram a fascismo.

Por outro lado, está em vias de construção um mito tecnocrático, segundo o qual a ciência e a engenharia resolveriam todos os males ecológicos. Como nas utopias de H.G. Welles, afirma-se que é necessária uma nova elite para planificar a solução da crise ecológica. Fala-se de exigência de maior centralização do estado que desaguaria na criação de um Mega-Estado, em paralelo com as multinacionais. E como a mitologia se tornou popular entre eco-místicos, entre os sustentadores de um primitivismo em versão ecológica, do mesmo modo e teoria sistêmica se tornou muito popular entre eco-tecnocratas, entre partidários do futurismo, em versão ecológica.

Em ambos os casos, os ideais libertários do iluminismo – sua valorização da liberdade, do conhecimento, da autonomia individual – são negados pela sistemática pretensão de jogar-nos a um passado obscuro, mistificado e sinistro, ou de catapultar-nos como mísseis num futuro radiante, porém igualmente mistificante e sinistro.” [Por uma Ecologia Social]

A Lanterna – 28-06-1934
O IRRACIONALISMO DA EXTREMA DIREITA

Se a esquerda socialista, com o anarquismo incluso, sempre esteve atenta ao uso da ciência e o discurso racionalista como forma de dominação, sempre se tratou de uma critica relativa à utilização apenas. Portanto, não se pode confundir com o negacionismo reacionário com origem no extremo oposto do espectro político. Nos dias atuais, vemos uma nova ascensão da extrema direita em todos os continentes. Populistas conservadores chegaram ao poder em países tão diversos como Estados Unidos, Rússia, Turquia, Israel, Filipinas e Índia. Movimentos reacionários e paramilitares tomam as ruas na Colômbia, na Síria, na Ucrânia e no Japão. Em comum, todos estão associados a uma onda obscurantista, irracionalista e anti-iluminista.

Nas Américas e na Europa, vemos uma direita com base cristã iniciando uma nova guerra santa contra os direitos das mulheres, contra as comunidades imigrantes e contra a população LGBT+. A aliança entre igrejas neopentecostais e os governos de Jair Bolsonaro e Donald Trump, bem como com papel golpista na Bolívia, na Venezuela e em outros países latino-americanos, quase sempre como linha auxiliar da direita entreguista atrelada ao Imperialismo norte-americano, seria um grande exemplo desse movimento. Infelizmente, sua influência regressiva também se faz sentir em governos ditos de esquerda: em Cuba, o Partido Comunista recuou na aprovação do casamento homoafetivo para não desagradar as igrejas, e no México, o presidente AMLO chegou ao poder coligado com um partido evangélico conservador.

Mas o cristianismo não é a única religião com desvios à direita. Na Turquia, o fundamentalismo islâmico da Irmandade Muçulmana encontrou terreno fértil com o governo de Erdogan, pretenso sultão que segue com sua política de fins genocidas contra o povo curdo e a Revolução de Rojava. Na Birmânia, nacionalistas budistas iniciaram uma limpeza étnica contra a minoria Rohingya, enquanto na Índia, milícias marcham pelas ruas atacando muçulmanos e laicistas sob a bandeira do Hindutva, uma leitura fundamentalista do hinduísmo. Em Israel, Benjamin Netanyahu representa uma coalizão que engloba ultranacionalistas e fundamentalistas judeus, o que garantiu uma maior radicalização do projeto colonial sionista.

Uma das grandes bandeiras mobilizadoras dessa extrema direita mundial são as teorias da conspiração anti-iluministas. Elas se manifestam de várias maneiras, cumprindo a função de desviar críticas estruturais ao sistema capitalista e estatal para abordagens sobre elites, reais ou imaginárias, com tons moralizantes. Muitas vezes, possuem um viés conservador e reacionário, transformando grupos oprimidos em inimigos a serem combatidos.

A origem das modernas teorias da conspiração podem ser recuperadas no contexto da ascensão da burguesia como classe dominante, em especial a Revolução Francesa. Os jacobinos – membros do movimento revolucionário republicano-liberal – foram denunciados como parte de uma articulação envolvendo a maçonaria e o povo judeu. Essas acusações partiam da extrema direita monarquista associada a antiga nobreza e ao clero.

Posteriormente, com o surgimento do socialismo, essa história foi sendo adaptada. A Polícia czarista russa chegaria a forjar um documento chamado Os Protocolos dos Sábios de Sião – que apontava o liberalismo e o socialismo como armas de dominação do judaísmo –, que acabaria sendo utilizado por Adolf Hitler como legitimação para o Holocausto. Outra variação da história, que se tornou popular na Guerra Fria, foi a do “marxismo cultural”, no qual os comunistas, através de Gramsci e da Escola de Frankfurt, teriam desistido de realizarem uma revolução e estariam decididos a destruir a ordem mundial através da infiltração nas mídias e escolas.

A versão mais popular das teorias da conspiração no fim do século passado foi a dos Illuminatti. Os Iluminados de Baviera, como também eram chamados, foram uma sociedade iluminista radical e com um programa liberal revolucionário no século XVIII, mas que acabaram brutalmente reprimidos pelos governos europeus. Apesar de terem desaparecido, foram constantemente usados por grupos conservadores como uma ameaça invisível contra as tradições religiosas e valores nacionais.

Para a maior parte da extrema direita, os problemas da sociedade tem a origem no Iluminismo e nas Revoluções burguesas, pois teria ocorrido o início do declínio do domínio da religião sobre a vida humana. Sejam os Illuminatti, os marxistas culturais, os globalistas ou os judeus, esse “inimigo imaginário” vem nos últimos séculos servindo de bode expiatório, de justificativa, da guerra eterna da direita radical contra a razão humana.

Comparemos os discursos. Eis um trecho escrito por Gustavo Barroso, uma das lideranças do movimento integralista brasileiro

A Revolução Francesa foi, inegavelmente, o resultado duma conjura maçônica (…) com as lojas dos Iluminados judeus da Alemanha (…) Os judeus haviam inspirado os ritos maçônicos e dirigiam secretamente as suas obediências. [A História Secreta do Mundo]

E o que foi dito pelo guru do bolsonarismo, Olavo de Carvalho

O ideal de uma sociedade regida pela ‘razão científica’ é o cerne mesmo da proposta iluminista, e a ele deve-se o nascimento das duas tiranias mais sangrentas que o mundo já conheceu, uma fundada na biologia evolucionária, outra na ciência marxista da história e da economia [Psicose Iluminista]

A elite globalista não é apenas uma vaga classe social de capitalistas e banqueiros. É uma entidade organizada, com existência contínua há mais de um século, que se reúne periodicamente para assegurar a unidade dos seus planos e a continuidade da sua execução (…) O Consórcio é uma entidade característicamente supra-nacional, formada de famílias de nacionalidades diversas, independente e soberana em face de qualquer interesse nacional possível e imaginável. [Os EUA e a Nova Ordem Mundial]

Uma conspiração bastante popular é o suposto plano para sexualizar crianças a serviço de um movimento pedófilo ligado à comunidade LGBT+. Seguem a declaração de dois presidentes no poder hoje:

Eles estão negando os princípios morais e todas as identidades tradicionais: nacionais, culturais, religiosas e até mesmo sexuais. Eles estão implementando políticas que equiparam famílias numerosas com parcerias do mesmo sexo; crença em Deus com crença em Satanás. Os excessos do politicamente correto chegaram ao ponto em que as pessoas estão falando seriamente sobre registrar partidos políticos cujo objetivo é promover a pedofilia. [Vladimir Putin]

Quem pensa dessa maneira de respeitar é quem quer levar essa matéria para as escolas para transformar crianças de seis anos em homossexuais. Ao ponto que daí facilita a pedofilia no Brasil. [Jair Bolsonaro]

Para políticos como Putin e Bolsonaro, a luta pela aceitação e respeito às diversas orientações sexuais e identidades de gênero são apenas parte de um plano de abuso e violência. O que buscam esconder por trás dessas argumentações irracionalistas é, na verdade, o ódio patriarcal e o fundamentalismo religioso que realmente impõem papéis comportamentais com base em estereótipos de gênero.

Não só o movimento LGBT+ é vítima desse tipo de intriga. Vemos imigrantes muçulmanos na Europa, por exemplo, sendo acusados de buscarem uma islamização mundial, ou então, no Brasil, a crença de que veículos midiáticos de direita liberal – como a Globo e a Folha, envolvidas com o golpe militar de 64 e o golpe parlamentar de 2016 – estariam trabalhando para o marxismo.

Hoje, no ano de 2020, vemos o avanço global do movimento QAnon, nascido nos Estados Unidos. Essa teoria da conspiração vê em Donald Trump e na direita norte-americana uma resistência contra uma suposta conspiração satanista internacional, e rapidamente, células desse movimento já se espalharam para Alemanha, Reino Unido, Rússia, Indonésia, Japão, Grécia, Canadá, Austrália, Brasil e Argentina. Se estamos vendo o fortalecimento de uma nova rede global reacionária, o tempo dirá, mas certamente esse é mais um elemento do reacionarismo irracionalista.

Talvez o setor da direita antiiluminista que mais tenha conseguido destaque recentemente, e possa servir como um exemplo do todo, é o Tradicionalismo. Nascido no século XX com o francês René Guenon, esse movimento vê a chamada “Modernidade”, iniciada com o Iluminismo, como uma decadência da sociedade, através do abandono das religiões e das explicações de origens místicas. Seu discípulo mais popular foi Julius Evola, um histórico fascista italiano, apoiador de Mussolini e que participou ativamente da rearticulação do fascismo no pós Segunda Guerra.

Nos anos 90, o primeiro Tradicionalista a crescer politicamente foi o russo Aleksandr Dugin, que logo caiu nas graças do alto escalão militar russo e encontrou um espaço no círculo interno do governo Putin. Guru de boa parte da extrema direita europeia, Dugin busca reconstruir o imperialismo russo a partir de um desafio à ordem liberal hegemônica. Mais recentemente, Steve Bannon ganhou destaque ao auxiliar na eleição de Trump e no processo do Brexit através de sua empresa, Cambridge Analytica, envolvida no escândalo de roubo de dados através das Redes sociais. Sustentado por bilionários de direita e visto como referência do movimento Alt Right, Bannon iniciou um processo de radicalização da direita ocidental, e se aproximando de um terceiro Tradicionalista, o brasileiro Olavo de Carvalho.

Apesar de algumas divergências entre os três Tradicionalistas, todos são defensores do governo de Donald Trump, visto como um “renascimento” de um Ocidente baseado na religião e no nacionalismo étnico, e inimigo ardente da sociedade racional nascida no Iluminismo, que eles chamam de “globalismo”. Bannon, Carvalho e Dugin possuem críticas ao Capitalismo, mas não as mesmas que a Esquerda: o problema, afirmam eles, é que a burguesia está excessivamente preocupada com o lucro e está abandonando os valores tradicionais. São reacionários, pois desejam que o mundo gire para trás, no qual a hierarquia de classe seja pautada pelas hierarquias aristocráticas e patriarcais clássicas.

PELA DEMOCRATIZAÇÃO E PROMOÇÃO DO CONHECIMENTO

O mundo vive uma falsa dualidade onde as camadas populares ficam espremidas, de um lado, por uma elite tecno-burocrática e liberal, associadas aos grandes organismos internacionais e às grandes corporações, que se afirma detentora do conhecimento – gestores, administradores e especialistas – em nome do grande Capital, e do outro lado, partidos ultranacionalistas, milicias neofascistas, lideranças religiosas de direita e de caráter patriarcal, que buscam cooptar setores populares que muitas vezes veem nesses movimentos reacionários uma alternativa para sua miséria.

Diante desse cenário, a esquerda socialista e revolucionária deve resgatar suas históricas bandeiras por uma educação racionalista de bases populares e por uma democratização do saber e da produção científica, levando em conta não uma perspectiva eurocentrica liberal e masculina, mas abrangendo as contribuições produzidas pela luta das mulheres, dos povos não brancos, da comunidade LGBT+ e de todas as classes populares do planeta.

Como afirmou Gönül Kaya, jornalista e membra do movimento de mulheres curdas:

Como todos sabem, na história, governantes e detentores do poder estabeleceram seus sistemas primeiro no pensamento. Como extensão do sistema patriarcal, foi criado um campo das ciências sociais, que é masculino, específico de uma classe e de caráter sexista. (…)

Nas sociedades naturais anteriores à civilização patriarcal, o conhecimento e a ciência faziam parte da sociedade, na ética e na política. (…) Junto com a civilização patriarcal, as mulheres e a sociedade foram roubadas do conhecimento e da ciência. Os detentores do poder e as forças governamentais tornaram-se mais fortes com a ajuda do conhecimento e da ciência. Isso levou à separação radical do conhecimento e da sociedade (…)

Deve ser construído o campo de uma nova ciência social para todos aqueles círculos que não fazem parte da estrutura de poder e do Estado. Esta é a tarefa de todos os movimentos, indivíduos e mulheres anticolonialistas e anticapitalistas. [Por que Jineolojî?]

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