Os Crimes de Maio de 2006 e a luta das mães contra a violência do Estado

Há 14 anos, acontecia no estado de São Paulo uma das maiores chacinas já vistas na história do país. Foram os Crimes de Maio, que em 2006 provocaram a morte de centenas de pessoas, na maioria jovens, principalmente na Grande São Paulo e na Baixada Santista.

Uma série de rebeliões nos presídios paulistas teve início em maio daquele ano, e foi combinada com ataques a delegacias de polícia e bases da PM. Segundo o governo do estado na época, as rebeliões aconteceram porque o governo transferiu algumas lideranças do Primeiro Comando da Capital (PCC) e porque a facção queria influenciar nas eleições daquele ano. Porém, reportagens e pesquisas apontaram a motivação das rebeliões em sequestros e extorsão de membros do PCC e de seus parentes, por parte de policiais civis. A superlotação das penitenciárias seria outro fator apontado.

Aos ataques se seguiu, de 12 a 20 de maio, um desproporcional revide das forças policiais. Parte das mortes eram execuções sumárias de pessoas ligadas ao PCC (o que por si só já são ilegais), mas a grande maioria era formada por jovens sem qualquer relação com atividades criminosas. Muitas mortes eram registradas como “confrontos” com a polícia, e outras eram execuções feitas por grupos de extermínio contra pessoas aleatórias, matando na maioria jovens negros e moradores das periferias, em meio ao Dia das Mães. Coturnos e toucas pretas eram marcas desses esquadrões da morte, formados por policiais. A trégua veio com um acordo entre governo do estado e PCC, e até hoje não se sabe o que foi negociado. O estado era governado por Claudio Lembo, vice de Geraldo Alckmin, que havia acabado de se licenciar para disputar a eleição presidencial.

Números oficiais registraram mais de 500 mortes por arma de fogo no estado entre 12 e 20 de maio daquele ano. Análise dos laudos periciais apontou indícios de execução sumária, como tiros em regiões vitais, inclusive pelas costas, e de cima para baixo. Reportagens nos anos seguintes mostram que os comandantes dos batalhões tinham pleno conhecimento dos grupos de extermínio – na Zona Sul de São Paulo, conhecidos como Highlanders, e na Baixada Santista, os Ninjas.

A dor e o luto forjaram nos parentes das vítimas a busca por verdade e justiça. Na Baixada Santista surgiram as Mães de Maio, grupo que depois se ampliou para parentes de outras vítimas daqueles crimes e também de outras chacinas no estado, como os Crimes de Abril de 2010 e as chacinas de 2012. Há 14 anos, essas famílias, principalmente mulheres das periferias, lutam para denunciar o terrorismo de Estado e exigir a devida responsabilização e reparação pelas mortes de seus filhos. Como inscrito em sua bandeira, buscam “Memória, Verdade, Justiça e Liberdade”. Nessa luta desigual, até hoje apenas um PM foi condenado por mortes em 2006.

Os Crimes de Maio de 2006 estiveram entre os episódios mais extremos da violência cotidiana do Estado contra a população preta, pobre e periférica em plena “democracia” retomada depois da Ditatura Militar de 1964-1985. Foram a maior crise paulista de segurança pública já registrada. Mas a violência policial nunca cessou nas periferias do Brasil e de São Paulo, seja na forma de chacinas, como em Osasco e Barueri, em 2015, ou de maneira cotidiana, como nas abordagens abusivas, nos flagrantes forjados e em execuções diárias.

A luta é encampada pelas Mães de Maio e outros movimentos que denunciam a violência de Estado porque só a autoorganização das oprimidas e oprimidos tem condições de enfrentar esse sistema que exclui e mata. É a mobilização do povo pobre nas quebradas, construindo a resistência desde baixo, que vai fortalecer as comunidades e abrir caminho para a destruição das estruturas opressoras.

VIVA A LUTA DAS MÃES DE MAIO!

CONTRA O EXTERMÍNIO DA JUVENTUDE PRETA, POBRE E PERIFÉRICA!

NÃO ESQUECER, JAMAIS PERDOAR!

 

Sobre os Crimes de Maio:

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